LeMetro

Laboratório de Etnografia Metropolitana IFCS/UFRJ

27 agosto 2005

Saara: Reinventando etnicidades e ambiências urbanas num mercado popular carioca*


Os limites da Saara são demarcados por cavaletes amarelos.

Profª Drª Neiva Vieira da Cunha
Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ
Laboratório de Etnografia Metropolitana – IFCS-UFRJ
Universidade Candido Mendes
neiva@ifcs.ufrj.br

Pedro Paulo Thiago de Mello
Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Antropologia – PPGA-UFF
Laboratório de Etnografia Metropolitana – IFCS-UFRJ
paulothiago@globo.com

(*) Texto apresentado na reunião ALA, realizada em Rosário, Argentina. Para ver mais fotos da Saara, acesse o link: http://ipaco.multiply.com/photos/album/21
Todas as fotos são de Paulo Thiago de Mello

Resumo

Formada por 11 ruas e abrigando 1.250 lojas, a SAARA é uma das mais tradicionais e dinâmicas áreas de comércio popular da cidade do Rio de Janeiro. Originalmente ocupada por imigrantes, na virada do século XIX para o século XX, essa região caracterizou-se pelo acolhimento de várias levas de estrangeiros que acabaram por fornecer-lhe uma feição peculiar: sírios, libaneses, turcos e armênios, além de judeus de diversas origens, e, mais recentemente os chineses, todos voltados para as atividades do comércio. A co-presença desses diferentes grupos étnicos delimitaram uma espécie de "região moral", onde as atividades econômicas e comerciais, marcadas pela concorrência, associam-se a um capital social que se traduz em redes de solidariedade, formas de engajamento e sociabilidade. Tal configuração, resultante desse confronto de alteridades, evoca o modelo de mercado oriental e aproxima essa forma de comércio de uma espécie de "economia de bazar", onde as trocas não se reduzem à sua dimensão puramente econômica, favorecendo o surgimento de formas de relações sociais que acabam por sustentar a atividade econômica ali desenvolvida. Tomando tal realidade empírica como objeto de investigação, o presente trabalho buscara uma vez mais descrever e analisar o modo como esses atores estabelecem suas próprias estratégias de adaptação e reprodução, particularmente no que diz respeito à mobilidade social e espacial e ao processo sucessório de seus negócios.

1. Saara: um bazar no Centro do Rio de Janeiro


Os produtos vendidos na Saara têm forte relação com as tendências do momento.

A região de comércio popular localizada no Centro da cidade do Rio de Janeiro e conhecida como Saara apresenta evocações do mercado oriental, como o bazar persa ou o suq árabe, e mesmo, mais longinquamente (nos sentidos físico e simbólico), o shichang[1] chinês. Tal evocação refere-se provavelmente a estereótipos de filmes, livros e reportagens, em que os mercados do Oriente Médio, do Golfo Pérsico, do Norte da África e da Ásia são retratados de tal modo que fomentam uma assombrosa sensação de caos e mistério. O próprio nome da região em questão, sigla de Sociedade dos Amigos das Adjacências da Rua da Alfândega[2] remete ao grande deserto africano e aos mercadores que o atravessam em caravanas desde tempos imemoriais.

Talvez a fonte imaginosa desses estereótipos resida no fato de que esses lugares são simultaneamente pontos de encontro e trocas (legais ou ilícitas), bem como de construção e afirmação de identidades num espaço público, onde valores culturais distintos, às vezes até mesmo contraditórios, emergem num campo com potencial para disputas e conflitos. Estes mercados também estão marcados, desde os tempos heróicos das caravanas, por fluxos migratórios de mercadores e trabalhadores transfronteiriços, assim como por diásporas de distintas etnias, hoje, num contexto de globalização. Nesses mercados, a definição de situações exige competências, calcadas na capacidade de formação de redes de alianças, e sensibilidade por parte dos atores, pois regras, normas e valores são negociados num ambiente cujos elementos básicos de poder estão calcados no domínio da informação e no uso do segredo.

O quadro pintando pelo senso comum em relação a este tipo de mercado é de fato expressivo e perturbador. A cantoria dos mercadores em seus pregões, num misto de canto e poesia; as disputas gestualmente teatralizadas nos processos de barganha entre clientes e vendedores[3]; o segredo em relação a origem de produtos, preços e lucros; o aparente desmantelo de mercadorias amontoadas e os displays difusos ou inexistentes de lojas, bancas e barracas; o espaço exíguo de ruas e vielas, por onde se espremem clientes e vendedores; enfim, quilômetros e quilômetros de negociações e trocas e um desassossego para quem caminha nesses mercados sem conhecer os códigos e segredos desse complexo universo.

Estas representações, exageradas ou não, encontram algum eco na Saara carioca. O cenário mais marcante dessa zona comercial da cidade é caracterizado por uma profusão de mercadorias variadas, cujas formas de exposição ao cliente variam enormemente. Em alguns casos, elas são dispostas em bancas à entrada das lojas, com os produtos amontoados à disposição do cliente para serem tocados e testados. Em outros, as mercadorias são ofertadas de modo organizado. Estas cenografias são inclusive fontes de conflitos com autoridades e elementos de distinção entre os comerciantes.

Em relação aos produtos à venda, a Saara também apresenta uma variedade considerável. Apenas entre as 251 lojas filiadas à associação encontram-se mais de 50 categorias diferentes de comércio, dentro de ramos profissionais distintos como alimentação; vestuário e acessórios; eletrônicos; ourives; saúde; financeiro; material de construção; festas e decoração; farmácia e cosméticos; clínicas; e discos. A Saara, enfim, oferece um festival de cores, sabores e odores que atrai multidões, especialmente nas datas festivas e comemorativas.

Tal alusão ao bazar oriental não é gratuita. Segundo Clifford Geertz, esse tipo de mercado apresenta um sistema de relações sociais centradas na produção e consumo de bens e serviços, configurando, desse modo, um tipo particular de economia. Mais do que isso, o bazar, ressalta o antropólogo, é uma instituição-chave, ao lado de cafés, banhos e mesquitas, para se compreender o Oriente Médio. Portanto, além de seu aspecto singular de economia, o bazar é igualmente uma forma cultural e uma instituição social. "O que a burocracia mandarim representou para a China clássica e o sistema de castas para a Índia clássica – a parte mais evocativa do todo – o bazar representou para as sociedades mais pragmáticas do Oriente Médio clássico" (Geertz, 1979, p. 123).

Se não apresenta a mesma relevância central que o bazar possui em relação ao Oriente Médio, a Saara é, de qualquer modo, uma forma cultural importante no contexto da cidade. Ela é simultaneamente uma área econômica e uma arena de definição de identidades, construção de valores morais compartilhados, que resultam num sentido amplo de pertencimento. Pertencimento este que ganha ainda maior dramaticidade, considerando-se a grande incidência de comerciantes que vieram para a Saara a partir de diásporas diversas.

Além disso, muitas das características básicas do suq de Sefrou, no Marrocos, como narradas na já clássica etnografia de Geertz, podem ser encontradas na Saara carioca, tais como: uma divisão de trabalho opacamente desenhada, funcionando numa estrutura de empresa familiar[4]; localização precisa dentro de uma região moral; heterogeneidade de produtos e serviços; intensa prática de barganhas e negociações de preços; transações comerciais extremamente fracionadas; laços relativamente estáveis de freguesia entre vendedores e clientes; existência de profissões tradicionais; etc.

Há, entretanto, diferenças marcantes na comparação entre os dois mercados. O problema da camelotagem e da venda de produtos ilícitos, e sobretudo a disputa entre comerciantes da Saara e vendedores ambulantes, levou a associação a proibir a atuação de camelôs dentro da Saara. No suq de Sefrou, a atividade desses comerciantes é tolerada de tal modo que já está integrada na composição daquele comércio. Na Saara, a atuação de sua equipe de segurança, composta por mais de 40 agentes (a maioria policiais em horário de folga, numa atuação denominada "bico" e ilegal), conseguiu afastar ambulantes, camelôs e pedintes de suas fronteiras. E ressalte-se que a Saara situa-se contiguamente ao Camelódromo, ponto tradicional de camelotagem no Rio de Janeiro.

A economia de bazar como um todo e as práticas comerciais no suq de Sefrou são milenares e seu ordenamento é regulado por costumes e tradições, através de instituições do próprio mercado, onde a atuação do Estado e de outras instâncias de poder institucionalizado é minimizada. O bazar permanente de Sefrou possuía, segundo levantamento realizado entre 1968 e 1969, 1.013 lojas e ateliês (Geertz, 1979, p. 141). No caso da Saara, este controle, norteado por normas e costumes do saber local, é exercido em boa medida pela associação, instância mediadora das relações entre a Saara e o Estado e entre os próprios comerciantes. De acordo com o site oficial da associação, existem hoje 251 estabelecimentos comerciais, além de quatro igrejas, filiados à entidade, inclusive três bancos (Bradesco, Unibanco e Banco do Brasil), bancas de jornais e escritórios. Este número representa cerca de 20% do total de unidades comerciais da Saara.

2. Região moral e suas fronteiras


Na foto acima, visão aérea da fronteira entre o camelódromo (barracas com teto de lona azul, e a Saara.

A Saara é, portanto, uma região moral no Centro do Rio de Janeiro, conformada por 11 ruas, cujos limites estão demarcados pela Praça da República e o Campo de Santana, a Oeste; a Avenida Presidente Vargas, ao Norte; a Rua dos Andradas, a Leste; e a Rua Buenos Aires, ao Sul. Suas principais vias são as ruas da Alfândega[5] e Senhor dos Passos, que atravessam a Saara de um extremo a outro. No interior de suas fronteiras, há, segundo a associação, cerca de 1.250 lojas estabelecidas em sobrados de estilo eclético, típicos da virada do século XIX para o século XX. Nesses sobrados moravam as primeiras gerações de comerciantes com suas famílias. No primeiro andar, ficavam as lojas e, no fundo ou no segundo andar, residiam as famílias. Em muitos casos a família extensa, à medida que os núcleos já estabelecidos continuavam recebendo parentes em novas levas de imigração:

"O início de todos nós foi morar aqui, nesta região. Eu, por exemplo, morei na Senhor dos Passos em 1930. E, como todos os outros, trabalhava embaixo e morava no sobrado." [6]

As fronteiras não são apenas físicas, mas sobretudo morais. Contíguo à Saara, por exemplo, situa-se o Camelódromo, região reservada a vendedores ambulantes e de barracas registrados na Prefeitura, no limite da Rua dos Andradas, que separa os dois espaços comerciais. Estes limites, sinalizados por cavaletes de madeira pintados de amarelo e placa alertando que o tráfego de veículos é proibido, indicam precisamente onde começam e terminam a Saara e o Camelódromo, cada área com suas regras e valores morais próprios.

Os dois ambientes apresentam práticas de comércio e códigos de conduta distintos. Além do aspecto da concorrência, situação de potencial conflito, há nos discursos dos atores da Saara a visão de que os comerciantes vizinhos são menos qualificados e atuam em situação irregular, vendendo produtos ilícitos (frutos de roubo) e artigos falsificados (piratas), estando vários deles de alguma forma ligados ao crime organizado. De modo que a presença de vendedores ambulantes e camelôs é expressamente proibida e prontamente reprimida pela segurança da Saara[7].

Já ao Sul, no limite com a Rua Buenos Aires, situam-se os comerciantes da Sociedade de Amigos do Largo do São Francisco (Salfa), entidade co-irmã da Saara. Trata-se igualmente de uma área de comércio popular, bem ao estilo da Saara, com lojas dentro de sobrados do mesmo período da região vizinha, vendendo produtos similares ou complementares. Não há, no entanto, uma identidade étnica explícita como na Saara, onde o discurso étnico reforça o sentido de pertencimento ao definir seus limites como uma região moral. A Rua Buenos Aires, que divide as duas áreas comerciais, tem o tráfego de veículos permitido, o que reforça o limite físico entre a Saara e a Salfa.

A Avenida Presidente Vargas é o limite físico ao Norte da Saara. Sua abertura, em 7 de setembro de 1944, era um dos pontos principais do plano de renovação urbana do Centro do Rio de Janeiro, elaborado pelo arquiteto Alfredo Agache. O plano previa redesenhar o traçado de ruas, abertura de avenidas e corredores viários, para integrar o Centro a outros bairros e implicava a destruição de casarios e remoção de populações. Uma segunda etapa do chamado Plano Agache chegou a ser anunciada no início dos anos 1960 e previa a destruição do casario da Saara para a construção da Avenida Diagonal, ligando a Av. Presidente Vargas à Lapa. Os comerciantes, no entanto, se uniram e conseguiram suspender a aplicação do referido plano. O marco dessa mobilização contra a intervenção do Estado na vida da cidade foi a criação da associação da Saara, em 1962.

Por fim, o Campo de Santana, no extremo Oeste, se impõe como fronteira natural. A Saara é ainda cortada no sentido Norte-Sul pela Avenida Passos, o que divide a região em dois blocos. O bloco Oriental é menor e situa-se ao lado do Camelódromo. Ali, as lojas da Saara são, na maior parte dos casos, menores e muitas delas não apresentam letreiros ou fachadas, exceto o display de mercadorias. Para descobrir o nome das lojas é preciso pedir ao vendedor o cartão de visitas do estabelecimento. Neste bloco, há apenas três postos de segurança, apesar da proximidade com o Camelódromo, foco potencial de conflitos.
No bloco Ocidental, que engloba cerca de dois terços da área total da Saara, estão as principais lojas e a maioria delas com letreiros e fachadas vistosos. Nesta parte há sete postos de segurança, localiza-se a sede da associação, a rádio Saara, e as lojas de maior prestígio. No entanto, nas entrevistas realizadas, nenhuma menção distinguindo os dois blocos foi feita até o momento. No bloco Ocidental situa-se também a Avenida Tomé de Souza, caracterizada por ter em sua parte central banquinhos, onde clientes podem sentar-se e descansar. É também ponto de encontro de comerciantes na hora do almoço, onde costumam conversar jocosamente, inclusive com piadas sobre as origens étnicas uns dos outros.

A Saara era exclusivamente um ponto de venda atacadista, abastecendo com suas mercadorias não apenas as lojas da cidade, mas igualmente várias regiões do país. Também fornecia produtos para comerciantes de outros bairros, mascates e vendedores ambulantes. Após o fim da Segunda Guerra mundial e com a aceleração do processo de industrialização do país, aumentando a concorrência com os atacadistas tradicionais, os comerciantes da Saara passaram a vender também a varejo, modalidade de comércio que hoje predomina no local.

Esta mudança no foco comercial foi acompanha pela transformação física das lojas. Afinal, os comerciantes se viram confrontados pelo desafio de atrair a atenção de fregueses em potencial. Vitrines, displays de produtos, bancas, manequins, araras, cabides e todo tipo de estratégia para criar um cenário atraente são até hoje uma das características das lojas da Saara. Do mesmo modo adotou-se a prática do pregão como arte de reclame comercial.

Já a Rádio Saara, criada como um conjunto precário de auto-falantes em 1966, tornou-se hoje um sofisticado sistema de comunicação de massa, funcionando como uma espécie de pregão coletivo, onde sketchs bem-humorados fazem o comercial de produtos à venda. Isto, no entanto, não substituiu as velhas práticas. Ainda hoje é comum ver um ou outro vendedor aos gritos convidando os transeuntes a visitar as lojas e conhecer suas mercadorias.

Costuma-se dizer que na Saara há todo tipo de produto. O que não se encontra em outros comércios da cidade, especialmente nas sofisticadas lojas de shoppings, na Saara estará disponível, e a preços acessíveis. A mídia ajudou a consagrar a imagem da Saara como área de comércio popular, com todos os estereótipos que tal imagem implica. A esta percepção soma-se aquela outra já mencionada do mercado exótico com evocações do Oriente Médio. Segundo a associação, durante a semana comum, a média de visitantes no local é de 90 mil pessoas. Este número dobra nos sábados e triplica nas grandes datas comemorativas.

Entre os produtos oferecidos, destacam-se os de vestuário e acessórios. A Saara abriga inúmeros armarinhos; butiques; confecções; malharias; lojas especializadas em uniformes e fantasias; comércio de roupas íntimas; moda unissex; moda masculina; moda feminina; moda infantil; tecidos; cama, mesa e banho; roupas para bebê; roupas para dormir; roupas para praia; roupas indianas; meias; jeans; calçados; bolsas; guarda-chuvas; silk screens; artigos de couro; artigos esportivos etc.

Outro ramo bastante comum na região é o de alimentação. São restaurantes de todos os tipos (a quilo, casa de pasto etc.), bares, pastelarias, padarias, lanchonetes e lojas de produtos alimentícios e especiarias, inclusive importadas do Oriente Médio e de outros países.
Nessas lojas encontram-se, por exemplo, condimentos e produtos vendidos a granel (cominho importado, manjerona, orégano, grão de bico, vários tipos de azeitona, pimentas variadas, folhas para chás, castanhas, bacalhau, arenque defumado etc.); frutas exóticas (tâmaras, nozes, avelãs, amêndoas etc.); e uma enorme variedade de enlatados e garrafas de produtos diversos (azeites importados de primeira pressão, conservas diversas etc). Há ainda lojas com produtos de Minas Gerais, com toucinho, queijos diversos, lingüiças variadas, doces de leite, bananadas, goiabadas, frutas em caldas etc. Restaurantes e lanchonetes oferecem ainda especialidades árabes.

Encontra-se também uma grande quantidade joalheirias e lojas de bijuterias; relojoeiros (que inclusive fazem reparos); equipamentos médicos; ferramentas e ferragens; e óticas. Havia cinco charutarias na Saara, hoje apenas uma ainda funciona, cujo dono é um sírio muçulmano. Há inúmeras lojas de brinquedos, artigos para festas, artesanato, utilidades domésticas, papelarias, decoração e móveis. Por fim, existem ainda vários escritórios de profissionais liberais e serviços diversos nos sobrados, como estúdio fotográfico, clínica médica, consultório dentário, administradoras etc. A Saara abriga ainda três centros comerciais verticais (em prédios) e quatro igrejas centenárias.

Um aspecto marcante na Saara é calendário festivo e religioso, que é transformado pelos mercadores locais numa boa oportunidade para os negócios. Ao longo do ano, os comerciantes se organizam e trabalham em função das várias datas comemorativas e eventos festivos, como carnaval, Páscoa, dias de São Jorge (padroeiro de sírios e libaneses maronitas), dia de Cosme e Damião, dia das crianças, dia dos pais, dia das mães, dia dos namorados, Copa do Mundo, réveillon e Natal. No Rosh-Hashana (ano novo judaico) e no Yom Kippur (dia do perdão), os comerciantes judeus fecham suas lojas. Recentemente, até mesmo o ano novo chinês foi comemorado na Saara. A grande data, no entanto, é mesmo o período do Natal e réveillon, quando o faturamento redime os esforços empreendidos ao longo ano.

3. Etnias e identidade


A Saara no período de Natal, o ápice das vendas.

A presença, desde o fim do século XIX e início do século XX, de grupos
étnicos – sobretudo sírios e libaneses maronitas, armênios cristãos ortodoxos e católicos, e judeus sefarades – especializados em ramos comerciais diversos emprestou à Saara a imagem de "mercado árabe", reduto de "turcos". Como já vimos, a evocação desse mundo exótico e longínquo está presente inclusive no nome da associação e do próprio mercado. Com eles convivem ainda outros grupos étnicos, como portugueses, gregos, espanhóis, entre outros. Esta variedade acabou por emprestar à Saara, segundo seus comerciantes, o apelido de "pequena ONU carioca". Além dos grupos estrangeiros, há ainda a presença de mineiros, nordestinos e paulistas.

A chegada desses principais grupos de imigrantes esteve ligada às diásporas provocadas por perseguições religiosas e políticas ao longo da região do Mediterrâneo e da Península Ibérica. Sírios, libaneses, armênios e gregos vieram fugindo da expansão do império turco-otomano. As primeiras gerações desses imigrantes, segundo relatos colhidos por estudiosos da imigração no Brasil, cultivavam o projeto de retornar à terra natal, tão logo as circunstâncias políticas o permitissem. No entanto, à medida que o tempo foi passando, foram se acomodando na nova terra, casando-se e misturando-se ao povo local, de modo que perceberam que a volta à terra natal era um sonho que se perdera ao longo do caminho (Grün, 1992; Truzzi, 1992). Os judeus sefarades, perseguidos por cristãos da Península Ibérica e, mais tarde, encontrando dificuldades com a expansão turco-otomana, também aportaram no Brasil a partir do fim do século XIX (Fausto, 2000).

Os grupos de origem árabe eram em sua maioria agricultores, mas se viram impedidos de exercer sua profissão no Brasil devido à enorme diferença entre os sistemas fundiários de seus países de origem, caracterizados por pequenas propriedades com agricultura de subsistência, e o do Brasil, marcado por grandes latifúndios, onde o acesso à terra não era algo simples. No entanto, ao percorrer o interior do país em busca de terras, esses imigrantes iniciaram negócios como mascates, lavando e trazendo produtos da cidade para o campo e vice-versa, boa parte através de encomendas.

Embora a atividade de mascateação[8] já fosse desempenhada no país por mercadores portugueses e italianos, os imigrantes de origem árabe introduziram novas modalidades neste tipo de comércio, tais como: mercadorias de qualidade superior àquelas vendidas pelos portugueses e italianos; alta rotatividade de produtos; promoções, liquidações e vendas a crédito (Worcman, 2000). De miudezas e bijuterias a tecidos, roupas prontas, lençóis etc. Com o lucro crescente, esses mascates foram abrindo lojas nas grandes cidades para abastecer sua própria atividade. À medida que os negócios prosperavam, começaram a trazer parentes para auxiliá-los nas viagens e entregas de produtos e passaram a vender também nos grandes centros onde estavam instalados. Dessas atividades de mascateação teria vindo o estereótipo e prestígio de excelentes mercadores de que gozam esses imigrantes.

Muitos dos judeus sefarades já eram negociadores quando aqui chegaram. Havia intelectuais, artesãos de extrema habilidade e profissionais diversos. Expulsos da Península Ibérica, depois que Espanha e Portugal os obrigaram a se converterem ao cristianismo, encontraram refúgio entre os turcos, atuando como mediadores dos muçulmanos junto às grandes potências européias. No entanto, durante a expansão do império turco-otomano, a obrigatoriedade do serviço militar passou a ser um risco diante das inúmeras frentes de batalhas que estavam surgindo. Em decorrência disso iniciaram um movimento migratório para o Brasil (Fausto, 2000).

A partir de meados dos anos 1990, uma grande leva de asiáticos[9] chegou à Saara, num movimento de tamanha expressividade, que o fenômeno foi classificado pela imprensa na época como uma "invasão"[10]. Os asiáticos vinham de São Paulo, onde o comércio de produtos variados para presentes e itens de papelaria, no qual esses grupos de imigrantes se especializaram, encontrava-se saturado. Esses imigrantes, muitos deles sem falar português, entravam ao Brasil por Foz do Iguaçu, vindos de Ciudad de Leste, no Paraguai, onde chegavam provenientes da Ásia.

Este fenômeno também representa um movimento de diáspora. Os chineses deixam Taiwan e a China continental, numa rota cujo destino final são os Estados Unidos e a Europa. Em meio a esse fluxo de milhões de pessoas estão, além de comerciantes, grupos mafiosos e gangues chinesas, cuja atividades variam de pirataria (falsificação de produtos)[11] ao tráfico de pessoas (para imigração, trabalho escravo e prostituição) e extorsão de comerciantes. Mais de 90% dos chineses no Brasil estabeleceram-se em São Paulo (ocupando a área de comércio da Rua 23 de Maio e o bairro da Liberdade), o restante, espalhou-se pelo Brasil, com predominância no Rio de Janeiro, Paraná e áreas de zona franca.

A presença asiática não significou apenas uma maior concorrência para os comerciantes da Saara. Os chineses trouxeram sobretudo novas práticas comerciais, maneiras diferenciadas de financiamento e uma cultura que contrastava com os valores já estabelecidos na região há cerca de um século. Notoriamente fechados, com dificuldades inclusive no domínio do idioma português, esses grupos foram discriminados dentro da Saara. Mas isso não impediu que eles continuassem chegando em massa. Da noite para o dia, os asiáticos passaram a ser o terceiro maior grupo étnico na Saara (atrás apenas dos sírios-libaneses e judeus).

Isto foi possível graças à disponibilidade de recursos, que permitiam a compra e o aluguel de lojas, inclusive algumas fachadas tradicionais. Esta disponibilidade foi sustentada por um sistema de crédito baseado em cooperativas. Este sistema influenciou a economia chinesa e asiática no século XX e é considerado uma das bases do sucesso econômico da região, inclusive do próprio Japão. Tal modelo baseia-se na formação de redes associativas ou clãs formados por afinidade ou parentesco, criando instituições financeiras similares a bancos (Chung, 2000). Estas redes ou clãs, associam-se, por sua vez, a outras redes, multiplicando sua capacidade de financiamento e disponibilidade de mão-de-obra.

Em outras palavras, os comerciantes provenientes da diáspora chinesa não estavam atrelados a modelos de financiamento e créditos convencionais do capitalismo ocidental. O sistema chinês funciona sob regras de conduta, onde a cooperação dentro das redes ou clãs reduz a competitividade. Isto não elimina a concorrência, mas há uma tendência maior ao associativismo de redes do que o desenvolvimento individual de empresas e grupos, como no capitalismo ocidental. As redes ou clãs relacionam-se entre si potencializando os recursos disponíveis para financiar os empreendimentos comerciais. Segundo Chung, estas redes estão por trás das atuais empresas privadas que atuam na China e são um dos sustentáculos do altíssimo índice de produtividade do país.

Este modelo econômico permitiu que os chineses chegassem à Saara com financiamento, mão-de-obra e uma estrutura empresarial de extrema produtividade. As relações com fornecedores, por exemplo, também mediadas por redes e, alguns casos, por grupos mafiosos (as chamadas tríades) permitiu que adquirissem mercadorias a baixíssimo custo. Isto possibilitou que os asiáticos oferecessem produtos extremamente baratos, em muitos casos adotando práticas de dumping (venda de produtos por preços abaixo do custo, normalmente com a intenção de aniquilar a concorrência). Foi o caso das lojas de produtos vendidos a R$ 1,99.

Outro fator importante no sucesso dos empreendedores chineses em sua diáspora reside no vínculo trabalhista de seus funcionários. A dedicação dos empregados é completa e total, muitas vezes impulsionadas por dívidas financeiras ou de gratidão. Muitos inclusive chegam a considerar essas relações como trabalho escravo. Desse modo, a produtividade de um empregado asiático tende a ser mais elevada do que a de um trabalhador protegido pelas leis trabalhistas dos países para onde esse imigrantes se dirigem, como é o caso do Brasil.

De outro lado, os comerciantes que já estavam estabelecidos sofriam os impactos da crise econômica brasileira, das altas taxas de juros para financiamento e uma das maiores tributações do mundo. A relativa alta produtividade dos empregados, favorecida pelo vínculo de parentesco nas empresas familiares dos grupos tradicionais da Saara, não foi suficiente para muitos comerciantes da primeira leva de imigrantes e eles se viram obrigados a vender seus negócios aos asiáticos, que ofereciam em quase todos os casos pagamento à vista.

As questões de gênero também influenciam a produtividade dos asiáticos e ampliam as distâncias culturais entre eles e os grupos étnicos preestabelecidos na Saara. A participação das mulheres nas lojas dos grupos de origem árabe, por exemplo, é normalmente reservada aos bastidores. Na hierarquia estrutural da loja, que começa pelo responsável pelos serviços gerais e a limpeza, e segue pelos "olheiros", vendedores, balconistas e caixas, até os gerentes e proprietários (estes últimos com a tarefa de abrir e fechar as lojas), a mulher só alcança o topo da pirâmide pela ausência de homens disponíveis para exercer tais funções.

"Entre os árabes, raramente a esposa participa publicamente do mundo dos negócios, um terreno masculino sinalizado por símbolos como a foto do patriarca na parede da loja, a herança do pai para os filhos homens, as árvores genealógicas onde só constam os varões."[12]

No caso dos chineses, as mulheres têm participação ativa na administração da loja. Estão no caixa e no atendimento aos fregueses. Aos homens competem os serviços pesados, como a segurança e fiscalização dos produtos. Este fator amplia o quadro de produtividade dos asiáticos.

"As chinesas são donas de negócios, trabalham com a família, comparecem em grande número. É comum ver-se as crianças pequenas fazendo os deveres escolares no fundo da loja enquanto a mãe atende a freguesia." [13]

Além disso, os chineses apresentam ainda outra característica diferenciadora em relação aos demais grupos étnicos da Saara: eles estão em movimento. Isto é, constituem um grupo engajado num sistema de mobilidade e circulação. Isto não significa que alguns deles não tenham se estabelecido na Saara de forma mais permanente. Mas o fato é que hoje, a esperada invasão chinesa, que transformaria o reduto árabe em uma Chinatown, não ocorreu. A presença asiática na Saara diminuiu quase tão rapidamente como surgiu. Como dissemos anteriormente, o objetivo desse fluxo migratório é alcançar os países desenvolvidos da América do Norte e da Europa. E mais, a escolha do Brasil parece ter a ver com as facilidades oferecidas pelas autoridades locais para alcançar esses portos considerados mais nobres. À medida que há um aperto no controle de imigração e dos negócios lícitos ou ilícitos, esses grupos prontamente desviam sua rota para outros países onde maior facilidade possa ser encontrada.

Desse modo, os chineses chegaram à Saara diferentemente dos grupos anteriores de imigrantes, que, mesmo com o intuito inicial de retornar às terras de origem, terminaram por se estabelecer no país, integrando-se à cultura local, embora mantendo suas singularidades étnicas. Os chineses, por sua vez, estão em um movimento migratório distinto, marcado pela mobilidade, pela transitoriedade e pela circulação constantes, o que altera enormemente sua perspectiva de integração à cultura local.

Todas essas enormes diferenças certamente contribuíram para acirrar as animosidades em relação ao grupo emergente. E, mesmo hoje, quando a presença dos asiáticos já não é tão imponente na Saara, os comerciantes ainda se referem aos chineses como "eles". O presidente da associação, Ênio Bittencourt, por exemplo, sintetiza a percepção local com respeito aos chineses:

"Os chineses são muito fechados. Eles chegaram, abriram as lojas, montaram e não dão confiança a ninguém. Eles vão trabalhando. Viram o sistema (da associação) e vão acompanhando."

De certo modo, a chegada posterior dos chineses à Saara recolocou os atores sociais daquela região mais uma vez diante dos dilemas de integração. Em sua segunda ou terceira gerações, os grupos étnicos anteriores já estavam adiantados em sua fase de assimilação da cultura local e definidos na ordem social. A presença dos chineses inaugurou um novo processo de rivalidade, conflito, adaptação e assimilação.

Os chineses não partilham da mesma memória dos demais grupos étnicos, inclusive sobre os processos de adaptação ou, por exemplo, de mobilização para impedir que a Saara fosse destruída para a construção da Avenida Diagonal. E esta memória das histórias de vida é certamente um dos elementos que compõem a identidade dos comerciantes da Saara.

Por outro lado, a chegada dos chineses, bem como de outros comerciantes, trouxe modificações na composição social e nas formas culturais da Saara. Foram introduzidas mudanças à ecologia daquela região, surgiram novos atores e novas relações.

4. A associação e o controle da Saara


Ênio Bittencourt, presidente da Saara, em sua loja de material esportivo.

É preciso salientar o papel da associação como mediadora das diferenças culturais na Saara e o potencial para conflitos, inclusive externamente, como foi o episódio da atuação dos seguranças da associação na prisão de dois membros das tongs[14] chinesas, que vieram extorquir os comerciantes chineses da Saara. A associação exerce, nesse aspecto, papel fundamental. Não apenas media as relações dentro e fora da Saara, com autoridades de vários níveis, como também impõe regras de convivência entre os comerciantes.

A entidade conta com um sistema eficiente de segurança e contrata cerca de 40 agentes, que atuam misturados ao público consumidor. De acordo com Ênio Bittencourt, a associação já foi várias vezes procurada para exportar seu modelo de segurança para outros redutos comerciais do país. Os seguranças são policiais atuando em horário de folga e com estreita ligação com as delegacias e batalhões de Polícia Militar da região. Essa estrutura tornou a Saara um lugar com baixíssimo índice de violência, relacionada a ocorrências criminais. Os casos mais comuns restringem-se a ação de punguistas (batedores de carteira) e furtos de produtos de lojas. Também impediu, como já vimos, a presença de camelôs, pedintes e grupos de menores de rua.

A associação também atua na regulação das condutas dos próprios comerciantes e isto, de certa forma, pode ter minimizado os impactos das diferenças culturais dos chineses na Saara. As regras devem ser cumpridas, caso contrário, segundo Ênio, a segurança da Saara impede que o comerciante trabalhe:

"A segurança aqui não brinca. A segurança é muito enérgica. Então, se o camarada não quiser respeitar, a gente fecha a porta dele. Bota três, quatro, cinco seguranças na porta dele e não entra mais nenhum freguês na loja dele. Então tem que respeitar. Aquele que não quer respeitar, a gente tem que usar de violência. É o jeito. Tem gente que só aprende com a violência."

As palavras do presidente da associação também deixam transparecer que o discurso de união e consenso, de "ONU carioca", não está isento de problemas de convivência no dia-a-dia. A colocação de seguranças na porta de um estabelecimento comercial para impedir a entrada de clientes em retaliação a alguma atitude contrária às determinações da associação é uma atitude de extremo, mas já ocorreu, segundo Ênio. Por outro lado, isto não impede que a associação faça vista grossa a determinadas posturas contrárias aos códigos da prefeitura, como a ocupação das calçadas por bancas com produtos, e até mesmo a venda de artigos pirateados (segundo Ênio, a responsabilidade é do proprietário da loja e a associação não se envolverá, caso a polícia apreenda mercadorias ou prenda o comerciante).

O papel da associação, como vimos, é de extrema importância e se, por um lado, impõe normas e regras aos comerciantes, por outro, também funciona como uma instituição protetora dos interesses dos comerciantes frente a atores externos, sejam fiscais da prefeitura, policiais, camelôs concorrentes, grupos mafiosos etc. Isto também não impede que os comerciantes da Saara estejam engajados em outros grupos, organizações e redes (como o caso dos chineses). Estas organizações podem ser, por exemplo, étnicas, religiosas, por afinidade ou familiar.

Vemos assim a complexidade da Saara em termos da estrutura social de seus comerciantes, pois estas teias de filiação e pertencimento se sobrepõem e se entrecruzam em distintas instâncias. Os comerciantes da Saara dispõem, assim, de variadas representações que lhes permitem negociar seus interesses e disputas recorrendo à instância que melhor lhes convier. E convém lembrar ainda que muitas dessas redes não são estanques. Nada impede que alianças sejam feitas e desfeitas ao sabor de acontecimentos cruciais, que venham a mobilizar esses atores.

As redes de alianças estabelecem seus parâmetros, digamos, morais que nem sempre coincidem com os costumes mais gerais da Saara. A hisba muçulmana, que estabelece as normas morais de regulação dos mercados do Oriente Médio, ou o guanxi chinês, que sustenta os relacionamentos baseados na confiança, são exemplos desses valores morais distintos presentes no mundo dos negócios e que aparecem em certa medida no dia-a-dia da Saara.

5. Conclusão


Casa Pedro, milhares de produtos a granel.

Por fim, o trabalho de campo da Saara, conquanto em seu estágio inicial, confirma o que outras etnografias já haviam apontado: o mercado não é apenas um lugar onde circulam mercadorias e serviços, mas sobretudo uma poderosa arena de relações sociais, de valores e de rituais, compondo um ambiente simultaneamente sócio-econômico e simbólico. O encontro de etnias provenientes de diferentes diásporas, em períodos distintos, acrescenta a esta arena, no caso particular da Saara, singularidades e elementos de ricos contrastes relacionados à construção e defesa de identidades sociais, com suas concepções particulares de mundo, com seus valores morais, com seus usos e apropriações dos espaços públicos e as formas próprias de interação dentro da região moral do mercado.

6. Notas

1. Todos estes termos significam "mercado", na acepção de lugar físico de comérfcio, onde são realizadas compra, venda e troca de mercadorias e serviços. Bazar é oriundo do persa; suq, do árabe; e shichang, do chinês (mandarim).

2. A Saara é a entidade representativa dos comerciantes daquela área e será denominada neste trabalho também como "associação".

3. Sobre a retórica das barganhas e sua importância estruturadora de identidades, ver PINTO, 2004.

4. O que coloca um dos problemas centrais da economia particular da Saara: a sucessão na direção das empresas familiares, já que muitos descendentes de segunda ou terceira gerações já não querem mais atuar no mercado como comerciantes, optando por profissões e ofícios socialmente mais valorizados. A este respeito ver LEONE, sem data.

5. A Alfândega sempre foi uma rua importante para o desenvolvimento do comércio do Rio, ligando o cais Pharoux ao Centro da cidade. Vários imigrantes ao chegar à cidade foram se instalando ao longo dessa via. Os ingleses foram os primeiros a chegar, com a abertura dos portos por D. João VI, e se instalar nas imediações da rua próxima ao cais. Em outras levas, vieram sírios, libaneses, armênios, judeus, gregos, entre outros, que foram ocupando as áreas mais interiores.

6. Depoimento do comerciante Alfredo Bouari à Annabella Blyth (BLYTH, 1991, vol 1., p. 78)

7. Isto não significa que os comerciantes da Saara não pratiquem atos ilícitos, como a venda de produtos piratas ou a sonegação de impostos.

8. O termo mascate refere-se à cidade árabe de Mascat, tomada por portugueses em 1507. O local era área de comércio e, em Portugal, passou-se a designar como mascate os mercadores de origem árabe.

9. A maioria deles chineses de Taiwan e do Sul da China continental, com predominância para os dialetos mandarim e cantonês. Em menor proporção também começaram a chegar no mesmo período sul-coreanos e japoneses.

10. Segundo reportagem do Jornal do Brasil, publicada em setembro de 1996, os asiáticos abriram mais de 50 lojas na Saara em pouco mais de dois anos.

11. A China, ao lado da Rússia, é considerada o país com o maior índice de pirataria de produtos. O Xiushui, um dos principais mercados populares de Pequim, por exemplo, com visitação diária média de 100 mil pessoas e o terceiro maior destino de turistas, vende todo tipo de produto pirateado, como bolsas Louis Vuiton, por preços infinitamente mais baixos que os originais.

12. WORCMAN, 2000, p. 43.

13. Ib. id., p. 44.

14. Tongs são gangues chinesas que atuam como braço armado dos grupos mafiosos. Segundo a Polícia Federal, as cinco famílias mafiosas de Taiwan – 14k, Sun Yee On, Bambu Unido, Fuchien e Dragão que Voa – têm forte atuação no Brasil.

7. Referências bibliográficas

ANDERSON, Elijah. 1999. Code of the street: Decency, violence, and the moral life of the inner city. New York. W. W. Norton & Company.

BECKER, Howard S. 1998. Tricks of the trade: How to think about your research while you’re doing it. Chicago. The University of Chicago Press.

BLYTH, Annabella. 1991. "Cristalização espacial e identidade cultural: Uma abordagem da herança urbana (O Saara, na área central da cidade do Rio de Janeiro)". Dissertação de mestrado, submetida à UFRJ. Vol. 1.

CHUNG, Wai-keung. 2002. "Institutional transformation and the creation of Chinese entrepreneurial networks". Paper apresentado no Corfu pre-conference of the session X: Diaspora entrepreneurial networks 1000-2000, do 13th International Economic History Congress, Buenos Aires.

CRESPO, Paloma Gómez. 1993. Comprar y vender. Madri. Eudema.

DUNEIER, Mitchell. 2001. Sidewalk. New York. Farrar, Straus and Giroux.

FAUSTO, Boris. 2000. Negócios e ócios: Histórias da imigração. São Paulo. Companhia das Letras.

GEERTZ, Clifford. 2001. "O saber local: fatos e leis em uma perspectiva comparativa". In GEERTZ, C. O saber local: Novos ensaios em antropologia interpretativista. Petrópolis. Ed. Vozes.

GEERTZ, Clifford. 1979. "Suq: The bazaar economy in Sefrou". In
GEERTZ, C. et alli. Meaning and Order in Moroccan society: Three essays in cultural analysis. Cambridge. Cmabridge University Press.

GERSON, Brasil. 2000. História das ruas do Rio. Rio de Janeiro. Lacerda Ed.

GOFFMAN, Erving. 1999. A representação do eu na vida cotidiana. Petrópolis. Vozes.

GOMES, Laura Graziela. 2002. "’Comércio étnico’ em Belleville: Memória, hospitalidade e conveniência". Revista Estudos Históricos, nº 29. FGV.

GRÜN, Roberto. 1992. Negócios & famílias: Armênios em São Paulo. São Paulo. Editora Sumaré.

JACOBS, Jane. 2001. Morte e vida de grandes cidades. São Paulo. Martins Fontes.

JOSEPH, Isaac et GRAFMEYER, Yves. 1984. L’École de Chicago. Paris. Aubier.

JOSEPH, Isaac. 2000. Erving Goffman e a microssociologia. Rio de Janeiro. Editora FGV.

MELLO, Marco Antonio da Silva et alli. 1993. A galinha d’Angola: iniciação e identidade na cultura afro-brasileira. Rio de Janeiro. Eduff e Editora Pallas.

MISSE, Michel. 1997. "As ligações perigosas: Mercado informal ilegal, narcotráfico e violência no Rio". Contemporaneidade e Educação, v. 1, nº 2, pp. 93-116.

PARK, Robert Ezra. 1967. "A cidade: sugestões para investigação do comportamento humano no meio urbano". In VELHO, Gilberto (org.). O fenômeno urbano. Rio de Janeiro. Zahar Editores.

PERALDI, Michel. 2001. Cabas et conteiners: Activités marchandes informelles et reseaux migrants transfronteliers. Paris. Maisonneuve et Larose.

PINTO, Paulo Gabriel Hilu da Rocha. 2004. "Negociando o público: Retórica, trocas e identidades religiosas no suq al-Medina de Alepo, na Síria". Paper apresentado na XXIV Reunião Brasileira de Antropologia. Recife.

TRUZZI, Oswaldo. 1992. De mascates a doutores: Sírios e libaneses em São Paulo. São Paulo. Editora Sumaré.

WORCMAN, Susane. 2000. Saara. Rio de Janeiro. Relume Dumará (Coleção cantos do Rio).

1 Comments:

Blogger Imigração Armênia no Brasil said...

olá! Meu nome é Julienne Gananian, sou de São Paulo e estou fazendo uma pesquis sobre os imigrantes armênios no Brasil.

Queria parabenizá-lo pelo blog e saber se você temmais informações sobre os armênios aí do Rio de janeiro!

Obrigada e até mais!
jugana@uol.com.br
www.armeniabrasil.blogspot.com

7:22 AM  

Postar um comentário

<< Home