LeMetro

Laboratório de Etnografia Metropolitana IFCS/UFRJ

26 março 2009

NOVO ENDEREÇO

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31 outubro 2005

Tecendo as redes do Programa Favela-Bairro em Acari*

Leticia de Luna Freire

Esta dissertação trata da intervenção do Programa Favela-Bairro (desenvolvido há dez anos pela prefeitura do Rio de Janeiro) na localidade de Acari em 2003 e 2004, analisada à luz da Teoria Ator-Rede. Pensado a partir das contribuições do antropólogo das ciências Bruno Latour, este operador teórico-metodológico é concebido como uma forma de abordar a fabricação dos fatos, tomando simetricamente natureza e sociedade, humano e não-humano. A pesquisa tem como objetivo acompanhar o processo desta intervenção urbana em Acari, descrevendo os atores (humanos e não-humanos) envolvidos e analisando os efeitos de suas ações na rede de implantação do Programa Favela-Bairro na localidade. Ao destacar a construção da prática interventora, busca-se uma abordagem simétrica em Psicologia Social, na qual nem o pólo “indivíduo” nem o pólo “sociedade” seja a priori privilegiado.

(*) Resumo da dissertação da autora, defendida no Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social (PPGPS), da Universidade do Estados do Rio de Janeiro (UERJ), orientador: Ronald João Jacques Arendt; co-orientadora: Teresa Cristina Carreteiro

27 agosto 2005

Saara: Reinventando etnicidades e ambiências urbanas num mercado popular carioca*


Os limites da Saara são demarcados por cavaletes amarelos.

Profª Drª Neiva Vieira da Cunha
Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ
Laboratório de Etnografia Metropolitana – IFCS-UFRJ
Universidade Candido Mendes
neiva@ifcs.ufrj.br

Pedro Paulo Thiago de Mello
Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Antropologia – PPGA-UFF
Laboratório de Etnografia Metropolitana – IFCS-UFRJ
paulothiago@globo.com

(*) Texto apresentado na reunião ALA, realizada em Rosário, Argentina. Para ver mais fotos da Saara, acesse o link: http://ipaco.multiply.com/photos/album/21
Todas as fotos são de Paulo Thiago de Mello

Resumo

Formada por 11 ruas e abrigando 1.250 lojas, a SAARA é uma das mais tradicionais e dinâmicas áreas de comércio popular da cidade do Rio de Janeiro. Originalmente ocupada por imigrantes, na virada do século XIX para o século XX, essa região caracterizou-se pelo acolhimento de várias levas de estrangeiros que acabaram por fornecer-lhe uma feição peculiar: sírios, libaneses, turcos e armênios, além de judeus de diversas origens, e, mais recentemente os chineses, todos voltados para as atividades do comércio. A co-presença desses diferentes grupos étnicos delimitaram uma espécie de "região moral", onde as atividades econômicas e comerciais, marcadas pela concorrência, associam-se a um capital social que se traduz em redes de solidariedade, formas de engajamento e sociabilidade. Tal configuração, resultante desse confronto de alteridades, evoca o modelo de mercado oriental e aproxima essa forma de comércio de uma espécie de "economia de bazar", onde as trocas não se reduzem à sua dimensão puramente econômica, favorecendo o surgimento de formas de relações sociais que acabam por sustentar a atividade econômica ali desenvolvida. Tomando tal realidade empírica como objeto de investigação, o presente trabalho buscara uma vez mais descrever e analisar o modo como esses atores estabelecem suas próprias estratégias de adaptação e reprodução, particularmente no que diz respeito à mobilidade social e espacial e ao processo sucessório de seus negócios.

1. Saara: um bazar no Centro do Rio de Janeiro


Os produtos vendidos na Saara têm forte relação com as tendências do momento.

A região de comércio popular localizada no Centro da cidade do Rio de Janeiro e conhecida como Saara apresenta evocações do mercado oriental, como o bazar persa ou o suq árabe, e mesmo, mais longinquamente (nos sentidos físico e simbólico), o shichang[1] chinês. Tal evocação refere-se provavelmente a estereótipos de filmes, livros e reportagens, em que os mercados do Oriente Médio, do Golfo Pérsico, do Norte da África e da Ásia são retratados de tal modo que fomentam uma assombrosa sensação de caos e mistério. O próprio nome da região em questão, sigla de Sociedade dos Amigos das Adjacências da Rua da Alfândega[2] remete ao grande deserto africano e aos mercadores que o atravessam em caravanas desde tempos imemoriais.

Talvez a fonte imaginosa desses estereótipos resida no fato de que esses lugares são simultaneamente pontos de encontro e trocas (legais ou ilícitas), bem como de construção e afirmação de identidades num espaço público, onde valores culturais distintos, às vezes até mesmo contraditórios, emergem num campo com potencial para disputas e conflitos. Estes mercados também estão marcados, desde os tempos heróicos das caravanas, por fluxos migratórios de mercadores e trabalhadores transfronteiriços, assim como por diásporas de distintas etnias, hoje, num contexto de globalização. Nesses mercados, a definição de situações exige competências, calcadas na capacidade de formação de redes de alianças, e sensibilidade por parte dos atores, pois regras, normas e valores são negociados num ambiente cujos elementos básicos de poder estão calcados no domínio da informação e no uso do segredo.

O quadro pintando pelo senso comum em relação a este tipo de mercado é de fato expressivo e perturbador. A cantoria dos mercadores em seus pregões, num misto de canto e poesia; as disputas gestualmente teatralizadas nos processos de barganha entre clientes e vendedores[3]; o segredo em relação a origem de produtos, preços e lucros; o aparente desmantelo de mercadorias amontoadas e os displays difusos ou inexistentes de lojas, bancas e barracas; o espaço exíguo de ruas e vielas, por onde se espremem clientes e vendedores; enfim, quilômetros e quilômetros de negociações e trocas e um desassossego para quem caminha nesses mercados sem conhecer os códigos e segredos desse complexo universo.

Estas representações, exageradas ou não, encontram algum eco na Saara carioca. O cenário mais marcante dessa zona comercial da cidade é caracterizado por uma profusão de mercadorias variadas, cujas formas de exposição ao cliente variam enormemente. Em alguns casos, elas são dispostas em bancas à entrada das lojas, com os produtos amontoados à disposição do cliente para serem tocados e testados. Em outros, as mercadorias são ofertadas de modo organizado. Estas cenografias são inclusive fontes de conflitos com autoridades e elementos de distinção entre os comerciantes.

Em relação aos produtos à venda, a Saara também apresenta uma variedade considerável. Apenas entre as 251 lojas filiadas à associação encontram-se mais de 50 categorias diferentes de comércio, dentro de ramos profissionais distintos como alimentação; vestuário e acessórios; eletrônicos; ourives; saúde; financeiro; material de construção; festas e decoração; farmácia e cosméticos; clínicas; e discos. A Saara, enfim, oferece um festival de cores, sabores e odores que atrai multidões, especialmente nas datas festivas e comemorativas.

Tal alusão ao bazar oriental não é gratuita. Segundo Clifford Geertz, esse tipo de mercado apresenta um sistema de relações sociais centradas na produção e consumo de bens e serviços, configurando, desse modo, um tipo particular de economia. Mais do que isso, o bazar, ressalta o antropólogo, é uma instituição-chave, ao lado de cafés, banhos e mesquitas, para se compreender o Oriente Médio. Portanto, além de seu aspecto singular de economia, o bazar é igualmente uma forma cultural e uma instituição social. "O que a burocracia mandarim representou para a China clássica e o sistema de castas para a Índia clássica – a parte mais evocativa do todo – o bazar representou para as sociedades mais pragmáticas do Oriente Médio clássico" (Geertz, 1979, p. 123).

Se não apresenta a mesma relevância central que o bazar possui em relação ao Oriente Médio, a Saara é, de qualquer modo, uma forma cultural importante no contexto da cidade. Ela é simultaneamente uma área econômica e uma arena de definição de identidades, construção de valores morais compartilhados, que resultam num sentido amplo de pertencimento. Pertencimento este que ganha ainda maior dramaticidade, considerando-se a grande incidência de comerciantes que vieram para a Saara a partir de diásporas diversas.

Além disso, muitas das características básicas do suq de Sefrou, no Marrocos, como narradas na já clássica etnografia de Geertz, podem ser encontradas na Saara carioca, tais como: uma divisão de trabalho opacamente desenhada, funcionando numa estrutura de empresa familiar[4]; localização precisa dentro de uma região moral; heterogeneidade de produtos e serviços; intensa prática de barganhas e negociações de preços; transações comerciais extremamente fracionadas; laços relativamente estáveis de freguesia entre vendedores e clientes; existência de profissões tradicionais; etc.

Há, entretanto, diferenças marcantes na comparação entre os dois mercados. O problema da camelotagem e da venda de produtos ilícitos, e sobretudo a disputa entre comerciantes da Saara e vendedores ambulantes, levou a associação a proibir a atuação de camelôs dentro da Saara. No suq de Sefrou, a atividade desses comerciantes é tolerada de tal modo que já está integrada na composição daquele comércio. Na Saara, a atuação de sua equipe de segurança, composta por mais de 40 agentes (a maioria policiais em horário de folga, numa atuação denominada "bico" e ilegal), conseguiu afastar ambulantes, camelôs e pedintes de suas fronteiras. E ressalte-se que a Saara situa-se contiguamente ao Camelódromo, ponto tradicional de camelotagem no Rio de Janeiro.

A economia de bazar como um todo e as práticas comerciais no suq de Sefrou são milenares e seu ordenamento é regulado por costumes e tradições, através de instituições do próprio mercado, onde a atuação do Estado e de outras instâncias de poder institucionalizado é minimizada. O bazar permanente de Sefrou possuía, segundo levantamento realizado entre 1968 e 1969, 1.013 lojas e ateliês (Geertz, 1979, p. 141). No caso da Saara, este controle, norteado por normas e costumes do saber local, é exercido em boa medida pela associação, instância mediadora das relações entre a Saara e o Estado e entre os próprios comerciantes. De acordo com o site oficial da associação, existem hoje 251 estabelecimentos comerciais, além de quatro igrejas, filiados à entidade, inclusive três bancos (Bradesco, Unibanco e Banco do Brasil), bancas de jornais e escritórios. Este número representa cerca de 20% do total de unidades comerciais da Saara.

2. Região moral e suas fronteiras


Na foto acima, visão aérea da fronteira entre o camelódromo (barracas com teto de lona azul, e a Saara.

A Saara é, portanto, uma região moral no Centro do Rio de Janeiro, conformada por 11 ruas, cujos limites estão demarcados pela Praça da República e o Campo de Santana, a Oeste; a Avenida Presidente Vargas, ao Norte; a Rua dos Andradas, a Leste; e a Rua Buenos Aires, ao Sul. Suas principais vias são as ruas da Alfândega[5] e Senhor dos Passos, que atravessam a Saara de um extremo a outro. No interior de suas fronteiras, há, segundo a associação, cerca de 1.250 lojas estabelecidas em sobrados de estilo eclético, típicos da virada do século XIX para o século XX. Nesses sobrados moravam as primeiras gerações de comerciantes com suas famílias. No primeiro andar, ficavam as lojas e, no fundo ou no segundo andar, residiam as famílias. Em muitos casos a família extensa, à medida que os núcleos já estabelecidos continuavam recebendo parentes em novas levas de imigração:

"O início de todos nós foi morar aqui, nesta região. Eu, por exemplo, morei na Senhor dos Passos em 1930. E, como todos os outros, trabalhava embaixo e morava no sobrado." [6]

As fronteiras não são apenas físicas, mas sobretudo morais. Contíguo à Saara, por exemplo, situa-se o Camelódromo, região reservada a vendedores ambulantes e de barracas registrados na Prefeitura, no limite da Rua dos Andradas, que separa os dois espaços comerciais. Estes limites, sinalizados por cavaletes de madeira pintados de amarelo e placa alertando que o tráfego de veículos é proibido, indicam precisamente onde começam e terminam a Saara e o Camelódromo, cada área com suas regras e valores morais próprios.

Os dois ambientes apresentam práticas de comércio e códigos de conduta distintos. Além do aspecto da concorrência, situação de potencial conflito, há nos discursos dos atores da Saara a visão de que os comerciantes vizinhos são menos qualificados e atuam em situação irregular, vendendo produtos ilícitos (frutos de roubo) e artigos falsificados (piratas), estando vários deles de alguma forma ligados ao crime organizado. De modo que a presença de vendedores ambulantes e camelôs é expressamente proibida e prontamente reprimida pela segurança da Saara[7].

Já ao Sul, no limite com a Rua Buenos Aires, situam-se os comerciantes da Sociedade de Amigos do Largo do São Francisco (Salfa), entidade co-irmã da Saara. Trata-se igualmente de uma área de comércio popular, bem ao estilo da Saara, com lojas dentro de sobrados do mesmo período da região vizinha, vendendo produtos similares ou complementares. Não há, no entanto, uma identidade étnica explícita como na Saara, onde o discurso étnico reforça o sentido de pertencimento ao definir seus limites como uma região moral. A Rua Buenos Aires, que divide as duas áreas comerciais, tem o tráfego de veículos permitido, o que reforça o limite físico entre a Saara e a Salfa.

A Avenida Presidente Vargas é o limite físico ao Norte da Saara. Sua abertura, em 7 de setembro de 1944, era um dos pontos principais do plano de renovação urbana do Centro do Rio de Janeiro, elaborado pelo arquiteto Alfredo Agache. O plano previa redesenhar o traçado de ruas, abertura de avenidas e corredores viários, para integrar o Centro a outros bairros e implicava a destruição de casarios e remoção de populações. Uma segunda etapa do chamado Plano Agache chegou a ser anunciada no início dos anos 1960 e previa a destruição do casario da Saara para a construção da Avenida Diagonal, ligando a Av. Presidente Vargas à Lapa. Os comerciantes, no entanto, se uniram e conseguiram suspender a aplicação do referido plano. O marco dessa mobilização contra a intervenção do Estado na vida da cidade foi a criação da associação da Saara, em 1962.

Por fim, o Campo de Santana, no extremo Oeste, se impõe como fronteira natural. A Saara é ainda cortada no sentido Norte-Sul pela Avenida Passos, o que divide a região em dois blocos. O bloco Oriental é menor e situa-se ao lado do Camelódromo. Ali, as lojas da Saara são, na maior parte dos casos, menores e muitas delas não apresentam letreiros ou fachadas, exceto o display de mercadorias. Para descobrir o nome das lojas é preciso pedir ao vendedor o cartão de visitas do estabelecimento. Neste bloco, há apenas três postos de segurança, apesar da proximidade com o Camelódromo, foco potencial de conflitos.
No bloco Ocidental, que engloba cerca de dois terços da área total da Saara, estão as principais lojas e a maioria delas com letreiros e fachadas vistosos. Nesta parte há sete postos de segurança, localiza-se a sede da associação, a rádio Saara, e as lojas de maior prestígio. No entanto, nas entrevistas realizadas, nenhuma menção distinguindo os dois blocos foi feita até o momento. No bloco Ocidental situa-se também a Avenida Tomé de Souza, caracterizada por ter em sua parte central banquinhos, onde clientes podem sentar-se e descansar. É também ponto de encontro de comerciantes na hora do almoço, onde costumam conversar jocosamente, inclusive com piadas sobre as origens étnicas uns dos outros.

A Saara era exclusivamente um ponto de venda atacadista, abastecendo com suas mercadorias não apenas as lojas da cidade, mas igualmente várias regiões do país. Também fornecia produtos para comerciantes de outros bairros, mascates e vendedores ambulantes. Após o fim da Segunda Guerra mundial e com a aceleração do processo de industrialização do país, aumentando a concorrência com os atacadistas tradicionais, os comerciantes da Saara passaram a vender também a varejo, modalidade de comércio que hoje predomina no local.

Esta mudança no foco comercial foi acompanha pela transformação física das lojas. Afinal, os comerciantes se viram confrontados pelo desafio de atrair a atenção de fregueses em potencial. Vitrines, displays de produtos, bancas, manequins, araras, cabides e todo tipo de estratégia para criar um cenário atraente são até hoje uma das características das lojas da Saara. Do mesmo modo adotou-se a prática do pregão como arte de reclame comercial.

Já a Rádio Saara, criada como um conjunto precário de auto-falantes em 1966, tornou-se hoje um sofisticado sistema de comunicação de massa, funcionando como uma espécie de pregão coletivo, onde sketchs bem-humorados fazem o comercial de produtos à venda. Isto, no entanto, não substituiu as velhas práticas. Ainda hoje é comum ver um ou outro vendedor aos gritos convidando os transeuntes a visitar as lojas e conhecer suas mercadorias.

Costuma-se dizer que na Saara há todo tipo de produto. O que não se encontra em outros comércios da cidade, especialmente nas sofisticadas lojas de shoppings, na Saara estará disponível, e a preços acessíveis. A mídia ajudou a consagrar a imagem da Saara como área de comércio popular, com todos os estereótipos que tal imagem implica. A esta percepção soma-se aquela outra já mencionada do mercado exótico com evocações do Oriente Médio. Segundo a associação, durante a semana comum, a média de visitantes no local é de 90 mil pessoas. Este número dobra nos sábados e triplica nas grandes datas comemorativas.

Entre os produtos oferecidos, destacam-se os de vestuário e acessórios. A Saara abriga inúmeros armarinhos; butiques; confecções; malharias; lojas especializadas em uniformes e fantasias; comércio de roupas íntimas; moda unissex; moda masculina; moda feminina; moda infantil; tecidos; cama, mesa e banho; roupas para bebê; roupas para dormir; roupas para praia; roupas indianas; meias; jeans; calçados; bolsas; guarda-chuvas; silk screens; artigos de couro; artigos esportivos etc.

Outro ramo bastante comum na região é o de alimentação. São restaurantes de todos os tipos (a quilo, casa de pasto etc.), bares, pastelarias, padarias, lanchonetes e lojas de produtos alimentícios e especiarias, inclusive importadas do Oriente Médio e de outros países.
Nessas lojas encontram-se, por exemplo, condimentos e produtos vendidos a granel (cominho importado, manjerona, orégano, grão de bico, vários tipos de azeitona, pimentas variadas, folhas para chás, castanhas, bacalhau, arenque defumado etc.); frutas exóticas (tâmaras, nozes, avelãs, amêndoas etc.); e uma enorme variedade de enlatados e garrafas de produtos diversos (azeites importados de primeira pressão, conservas diversas etc). Há ainda lojas com produtos de Minas Gerais, com toucinho, queijos diversos, lingüiças variadas, doces de leite, bananadas, goiabadas, frutas em caldas etc. Restaurantes e lanchonetes oferecem ainda especialidades árabes.

Encontra-se também uma grande quantidade joalheirias e lojas de bijuterias; relojoeiros (que inclusive fazem reparos); equipamentos médicos; ferramentas e ferragens; e óticas. Havia cinco charutarias na Saara, hoje apenas uma ainda funciona, cujo dono é um sírio muçulmano. Há inúmeras lojas de brinquedos, artigos para festas, artesanato, utilidades domésticas, papelarias, decoração e móveis. Por fim, existem ainda vários escritórios de profissionais liberais e serviços diversos nos sobrados, como estúdio fotográfico, clínica médica, consultório dentário, administradoras etc. A Saara abriga ainda três centros comerciais verticais (em prédios) e quatro igrejas centenárias.

Um aspecto marcante na Saara é calendário festivo e religioso, que é transformado pelos mercadores locais numa boa oportunidade para os negócios. Ao longo do ano, os comerciantes se organizam e trabalham em função das várias datas comemorativas e eventos festivos, como carnaval, Páscoa, dias de São Jorge (padroeiro de sírios e libaneses maronitas), dia de Cosme e Damião, dia das crianças, dia dos pais, dia das mães, dia dos namorados, Copa do Mundo, réveillon e Natal. No Rosh-Hashana (ano novo judaico) e no Yom Kippur (dia do perdão), os comerciantes judeus fecham suas lojas. Recentemente, até mesmo o ano novo chinês foi comemorado na Saara. A grande data, no entanto, é mesmo o período do Natal e réveillon, quando o faturamento redime os esforços empreendidos ao longo ano.

3. Etnias e identidade


A Saara no período de Natal, o ápice das vendas.

A presença, desde o fim do século XIX e início do século XX, de grupos
étnicos – sobretudo sírios e libaneses maronitas, armênios cristãos ortodoxos e católicos, e judeus sefarades – especializados em ramos comerciais diversos emprestou à Saara a imagem de "mercado árabe", reduto de "turcos". Como já vimos, a evocação desse mundo exótico e longínquo está presente inclusive no nome da associação e do próprio mercado. Com eles convivem ainda outros grupos étnicos, como portugueses, gregos, espanhóis, entre outros. Esta variedade acabou por emprestar à Saara, segundo seus comerciantes, o apelido de "pequena ONU carioca". Além dos grupos estrangeiros, há ainda a presença de mineiros, nordestinos e paulistas.

A chegada desses principais grupos de imigrantes esteve ligada às diásporas provocadas por perseguições religiosas e políticas ao longo da região do Mediterrâneo e da Península Ibérica. Sírios, libaneses, armênios e gregos vieram fugindo da expansão do império turco-otomano. As primeiras gerações desses imigrantes, segundo relatos colhidos por estudiosos da imigração no Brasil, cultivavam o projeto de retornar à terra natal, tão logo as circunstâncias políticas o permitissem. No entanto, à medida que o tempo foi passando, foram se acomodando na nova terra, casando-se e misturando-se ao povo local, de modo que perceberam que a volta à terra natal era um sonho que se perdera ao longo do caminho (Grün, 1992; Truzzi, 1992). Os judeus sefarades, perseguidos por cristãos da Península Ibérica e, mais tarde, encontrando dificuldades com a expansão turco-otomana, também aportaram no Brasil a partir do fim do século XIX (Fausto, 2000).

Os grupos de origem árabe eram em sua maioria agricultores, mas se viram impedidos de exercer sua profissão no Brasil devido à enorme diferença entre os sistemas fundiários de seus países de origem, caracterizados por pequenas propriedades com agricultura de subsistência, e o do Brasil, marcado por grandes latifúndios, onde o acesso à terra não era algo simples. No entanto, ao percorrer o interior do país em busca de terras, esses imigrantes iniciaram negócios como mascates, lavando e trazendo produtos da cidade para o campo e vice-versa, boa parte através de encomendas.

Embora a atividade de mascateação[8] já fosse desempenhada no país por mercadores portugueses e italianos, os imigrantes de origem árabe introduziram novas modalidades neste tipo de comércio, tais como: mercadorias de qualidade superior àquelas vendidas pelos portugueses e italianos; alta rotatividade de produtos; promoções, liquidações e vendas a crédito (Worcman, 2000). De miudezas e bijuterias a tecidos, roupas prontas, lençóis etc. Com o lucro crescente, esses mascates foram abrindo lojas nas grandes cidades para abastecer sua própria atividade. À medida que os negócios prosperavam, começaram a trazer parentes para auxiliá-los nas viagens e entregas de produtos e passaram a vender também nos grandes centros onde estavam instalados. Dessas atividades de mascateação teria vindo o estereótipo e prestígio de excelentes mercadores de que gozam esses imigrantes.

Muitos dos judeus sefarades já eram negociadores quando aqui chegaram. Havia intelectuais, artesãos de extrema habilidade e profissionais diversos. Expulsos da Península Ibérica, depois que Espanha e Portugal os obrigaram a se converterem ao cristianismo, encontraram refúgio entre os turcos, atuando como mediadores dos muçulmanos junto às grandes potências européias. No entanto, durante a expansão do império turco-otomano, a obrigatoriedade do serviço militar passou a ser um risco diante das inúmeras frentes de batalhas que estavam surgindo. Em decorrência disso iniciaram um movimento migratório para o Brasil (Fausto, 2000).

A partir de meados dos anos 1990, uma grande leva de asiáticos[9] chegou à Saara, num movimento de tamanha expressividade, que o fenômeno foi classificado pela imprensa na época como uma "invasão"[10]. Os asiáticos vinham de São Paulo, onde o comércio de produtos variados para presentes e itens de papelaria, no qual esses grupos de imigrantes se especializaram, encontrava-se saturado. Esses imigrantes, muitos deles sem falar português, entravam ao Brasil por Foz do Iguaçu, vindos de Ciudad de Leste, no Paraguai, onde chegavam provenientes da Ásia.

Este fenômeno também representa um movimento de diáspora. Os chineses deixam Taiwan e a China continental, numa rota cujo destino final são os Estados Unidos e a Europa. Em meio a esse fluxo de milhões de pessoas estão, além de comerciantes, grupos mafiosos e gangues chinesas, cuja atividades variam de pirataria (falsificação de produtos)[11] ao tráfico de pessoas (para imigração, trabalho escravo e prostituição) e extorsão de comerciantes. Mais de 90% dos chineses no Brasil estabeleceram-se em São Paulo (ocupando a área de comércio da Rua 23 de Maio e o bairro da Liberdade), o restante, espalhou-se pelo Brasil, com predominância no Rio de Janeiro, Paraná e áreas de zona franca.

A presença asiática não significou apenas uma maior concorrência para os comerciantes da Saara. Os chineses trouxeram sobretudo novas práticas comerciais, maneiras diferenciadas de financiamento e uma cultura que contrastava com os valores já estabelecidos na região há cerca de um século. Notoriamente fechados, com dificuldades inclusive no domínio do idioma português, esses grupos foram discriminados dentro da Saara. Mas isso não impediu que eles continuassem chegando em massa. Da noite para o dia, os asiáticos passaram a ser o terceiro maior grupo étnico na Saara (atrás apenas dos sírios-libaneses e judeus).

Isto foi possível graças à disponibilidade de recursos, que permitiam a compra e o aluguel de lojas, inclusive algumas fachadas tradicionais. Esta disponibilidade foi sustentada por um sistema de crédito baseado em cooperativas. Este sistema influenciou a economia chinesa e asiática no século XX e é considerado uma das bases do sucesso econômico da região, inclusive do próprio Japão. Tal modelo baseia-se na formação de redes associativas ou clãs formados por afinidade ou parentesco, criando instituições financeiras similares a bancos (Chung, 2000). Estas redes ou clãs, associam-se, por sua vez, a outras redes, multiplicando sua capacidade de financiamento e disponibilidade de mão-de-obra.

Em outras palavras, os comerciantes provenientes da diáspora chinesa não estavam atrelados a modelos de financiamento e créditos convencionais do capitalismo ocidental. O sistema chinês funciona sob regras de conduta, onde a cooperação dentro das redes ou clãs reduz a competitividade. Isto não elimina a concorrência, mas há uma tendência maior ao associativismo de redes do que o desenvolvimento individual de empresas e grupos, como no capitalismo ocidental. As redes ou clãs relacionam-se entre si potencializando os recursos disponíveis para financiar os empreendimentos comerciais. Segundo Chung, estas redes estão por trás das atuais empresas privadas que atuam na China e são um dos sustentáculos do altíssimo índice de produtividade do país.

Este modelo econômico permitiu que os chineses chegassem à Saara com financiamento, mão-de-obra e uma estrutura empresarial de extrema produtividade. As relações com fornecedores, por exemplo, também mediadas por redes e, alguns casos, por grupos mafiosos (as chamadas tríades) permitiu que adquirissem mercadorias a baixíssimo custo. Isto possibilitou que os asiáticos oferecessem produtos extremamente baratos, em muitos casos adotando práticas de dumping (venda de produtos por preços abaixo do custo, normalmente com a intenção de aniquilar a concorrência). Foi o caso das lojas de produtos vendidos a R$ 1,99.

Outro fator importante no sucesso dos empreendedores chineses em sua diáspora reside no vínculo trabalhista de seus funcionários. A dedicação dos empregados é completa e total, muitas vezes impulsionadas por dívidas financeiras ou de gratidão. Muitos inclusive chegam a considerar essas relações como trabalho escravo. Desse modo, a produtividade de um empregado asiático tende a ser mais elevada do que a de um trabalhador protegido pelas leis trabalhistas dos países para onde esse imigrantes se dirigem, como é o caso do Brasil.

De outro lado, os comerciantes que já estavam estabelecidos sofriam os impactos da crise econômica brasileira, das altas taxas de juros para financiamento e uma das maiores tributações do mundo. A relativa alta produtividade dos empregados, favorecida pelo vínculo de parentesco nas empresas familiares dos grupos tradicionais da Saara, não foi suficiente para muitos comerciantes da primeira leva de imigrantes e eles se viram obrigados a vender seus negócios aos asiáticos, que ofereciam em quase todos os casos pagamento à vista.

As questões de gênero também influenciam a produtividade dos asiáticos e ampliam as distâncias culturais entre eles e os grupos étnicos preestabelecidos na Saara. A participação das mulheres nas lojas dos grupos de origem árabe, por exemplo, é normalmente reservada aos bastidores. Na hierarquia estrutural da loja, que começa pelo responsável pelos serviços gerais e a limpeza, e segue pelos "olheiros", vendedores, balconistas e caixas, até os gerentes e proprietários (estes últimos com a tarefa de abrir e fechar as lojas), a mulher só alcança o topo da pirâmide pela ausência de homens disponíveis para exercer tais funções.

"Entre os árabes, raramente a esposa participa publicamente do mundo dos negócios, um terreno masculino sinalizado por símbolos como a foto do patriarca na parede da loja, a herança do pai para os filhos homens, as árvores genealógicas onde só constam os varões."[12]

No caso dos chineses, as mulheres têm participação ativa na administração da loja. Estão no caixa e no atendimento aos fregueses. Aos homens competem os serviços pesados, como a segurança e fiscalização dos produtos. Este fator amplia o quadro de produtividade dos asiáticos.

"As chinesas são donas de negócios, trabalham com a família, comparecem em grande número. É comum ver-se as crianças pequenas fazendo os deveres escolares no fundo da loja enquanto a mãe atende a freguesia." [13]

Além disso, os chineses apresentam ainda outra característica diferenciadora em relação aos demais grupos étnicos da Saara: eles estão em movimento. Isto é, constituem um grupo engajado num sistema de mobilidade e circulação. Isto não significa que alguns deles não tenham se estabelecido na Saara de forma mais permanente. Mas o fato é que hoje, a esperada invasão chinesa, que transformaria o reduto árabe em uma Chinatown, não ocorreu. A presença asiática na Saara diminuiu quase tão rapidamente como surgiu. Como dissemos anteriormente, o objetivo desse fluxo migratório é alcançar os países desenvolvidos da América do Norte e da Europa. E mais, a escolha do Brasil parece ter a ver com as facilidades oferecidas pelas autoridades locais para alcançar esses portos considerados mais nobres. À medida que há um aperto no controle de imigração e dos negócios lícitos ou ilícitos, esses grupos prontamente desviam sua rota para outros países onde maior facilidade possa ser encontrada.

Desse modo, os chineses chegaram à Saara diferentemente dos grupos anteriores de imigrantes, que, mesmo com o intuito inicial de retornar às terras de origem, terminaram por se estabelecer no país, integrando-se à cultura local, embora mantendo suas singularidades étnicas. Os chineses, por sua vez, estão em um movimento migratório distinto, marcado pela mobilidade, pela transitoriedade e pela circulação constantes, o que altera enormemente sua perspectiva de integração à cultura local.

Todas essas enormes diferenças certamente contribuíram para acirrar as animosidades em relação ao grupo emergente. E, mesmo hoje, quando a presença dos asiáticos já não é tão imponente na Saara, os comerciantes ainda se referem aos chineses como "eles". O presidente da associação, Ênio Bittencourt, por exemplo, sintetiza a percepção local com respeito aos chineses:

"Os chineses são muito fechados. Eles chegaram, abriram as lojas, montaram e não dão confiança a ninguém. Eles vão trabalhando. Viram o sistema (da associação) e vão acompanhando."

De certo modo, a chegada posterior dos chineses à Saara recolocou os atores sociais daquela região mais uma vez diante dos dilemas de integração. Em sua segunda ou terceira gerações, os grupos étnicos anteriores já estavam adiantados em sua fase de assimilação da cultura local e definidos na ordem social. A presença dos chineses inaugurou um novo processo de rivalidade, conflito, adaptação e assimilação.

Os chineses não partilham da mesma memória dos demais grupos étnicos, inclusive sobre os processos de adaptação ou, por exemplo, de mobilização para impedir que a Saara fosse destruída para a construção da Avenida Diagonal. E esta memória das histórias de vida é certamente um dos elementos que compõem a identidade dos comerciantes da Saara.

Por outro lado, a chegada dos chineses, bem como de outros comerciantes, trouxe modificações na composição social e nas formas culturais da Saara. Foram introduzidas mudanças à ecologia daquela região, surgiram novos atores e novas relações.

4. A associação e o controle da Saara


Ênio Bittencourt, presidente da Saara, em sua loja de material esportivo.

É preciso salientar o papel da associação como mediadora das diferenças culturais na Saara e o potencial para conflitos, inclusive externamente, como foi o episódio da atuação dos seguranças da associação na prisão de dois membros das tongs[14] chinesas, que vieram extorquir os comerciantes chineses da Saara. A associação exerce, nesse aspecto, papel fundamental. Não apenas media as relações dentro e fora da Saara, com autoridades de vários níveis, como também impõe regras de convivência entre os comerciantes.

A entidade conta com um sistema eficiente de segurança e contrata cerca de 40 agentes, que atuam misturados ao público consumidor. De acordo com Ênio Bittencourt, a associação já foi várias vezes procurada para exportar seu modelo de segurança para outros redutos comerciais do país. Os seguranças são policiais atuando em horário de folga e com estreita ligação com as delegacias e batalhões de Polícia Militar da região. Essa estrutura tornou a Saara um lugar com baixíssimo índice de violência, relacionada a ocorrências criminais. Os casos mais comuns restringem-se a ação de punguistas (batedores de carteira) e furtos de produtos de lojas. Também impediu, como já vimos, a presença de camelôs, pedintes e grupos de menores de rua.

A associação também atua na regulação das condutas dos próprios comerciantes e isto, de certa forma, pode ter minimizado os impactos das diferenças culturais dos chineses na Saara. As regras devem ser cumpridas, caso contrário, segundo Ênio, a segurança da Saara impede que o comerciante trabalhe:

"A segurança aqui não brinca. A segurança é muito enérgica. Então, se o camarada não quiser respeitar, a gente fecha a porta dele. Bota três, quatro, cinco seguranças na porta dele e não entra mais nenhum freguês na loja dele. Então tem que respeitar. Aquele que não quer respeitar, a gente tem que usar de violência. É o jeito. Tem gente que só aprende com a violência."

As palavras do presidente da associação também deixam transparecer que o discurso de união e consenso, de "ONU carioca", não está isento de problemas de convivência no dia-a-dia. A colocação de seguranças na porta de um estabelecimento comercial para impedir a entrada de clientes em retaliação a alguma atitude contrária às determinações da associação é uma atitude de extremo, mas já ocorreu, segundo Ênio. Por outro lado, isto não impede que a associação faça vista grossa a determinadas posturas contrárias aos códigos da prefeitura, como a ocupação das calçadas por bancas com produtos, e até mesmo a venda de artigos pirateados (segundo Ênio, a responsabilidade é do proprietário da loja e a associação não se envolverá, caso a polícia apreenda mercadorias ou prenda o comerciante).

O papel da associação, como vimos, é de extrema importância e se, por um lado, impõe normas e regras aos comerciantes, por outro, também funciona como uma instituição protetora dos interesses dos comerciantes frente a atores externos, sejam fiscais da prefeitura, policiais, camelôs concorrentes, grupos mafiosos etc. Isto também não impede que os comerciantes da Saara estejam engajados em outros grupos, organizações e redes (como o caso dos chineses). Estas organizações podem ser, por exemplo, étnicas, religiosas, por afinidade ou familiar.

Vemos assim a complexidade da Saara em termos da estrutura social de seus comerciantes, pois estas teias de filiação e pertencimento se sobrepõem e se entrecruzam em distintas instâncias. Os comerciantes da Saara dispõem, assim, de variadas representações que lhes permitem negociar seus interesses e disputas recorrendo à instância que melhor lhes convier. E convém lembrar ainda que muitas dessas redes não são estanques. Nada impede que alianças sejam feitas e desfeitas ao sabor de acontecimentos cruciais, que venham a mobilizar esses atores.

As redes de alianças estabelecem seus parâmetros, digamos, morais que nem sempre coincidem com os costumes mais gerais da Saara. A hisba muçulmana, que estabelece as normas morais de regulação dos mercados do Oriente Médio, ou o guanxi chinês, que sustenta os relacionamentos baseados na confiança, são exemplos desses valores morais distintos presentes no mundo dos negócios e que aparecem em certa medida no dia-a-dia da Saara.

5. Conclusão


Casa Pedro, milhares de produtos a granel.

Por fim, o trabalho de campo da Saara, conquanto em seu estágio inicial, confirma o que outras etnografias já haviam apontado: o mercado não é apenas um lugar onde circulam mercadorias e serviços, mas sobretudo uma poderosa arena de relações sociais, de valores e de rituais, compondo um ambiente simultaneamente sócio-econômico e simbólico. O encontro de etnias provenientes de diferentes diásporas, em períodos distintos, acrescenta a esta arena, no caso particular da Saara, singularidades e elementos de ricos contrastes relacionados à construção e defesa de identidades sociais, com suas concepções particulares de mundo, com seus valores morais, com seus usos e apropriações dos espaços públicos e as formas próprias de interação dentro da região moral do mercado.

6. Notas

1. Todos estes termos significam "mercado", na acepção de lugar físico de comérfcio, onde são realizadas compra, venda e troca de mercadorias e serviços. Bazar é oriundo do persa; suq, do árabe; e shichang, do chinês (mandarim).

2. A Saara é a entidade representativa dos comerciantes daquela área e será denominada neste trabalho também como "associação".

3. Sobre a retórica das barganhas e sua importância estruturadora de identidades, ver PINTO, 2004.

4. O que coloca um dos problemas centrais da economia particular da Saara: a sucessão na direção das empresas familiares, já que muitos descendentes de segunda ou terceira gerações já não querem mais atuar no mercado como comerciantes, optando por profissões e ofícios socialmente mais valorizados. A este respeito ver LEONE, sem data.

5. A Alfândega sempre foi uma rua importante para o desenvolvimento do comércio do Rio, ligando o cais Pharoux ao Centro da cidade. Vários imigrantes ao chegar à cidade foram se instalando ao longo dessa via. Os ingleses foram os primeiros a chegar, com a abertura dos portos por D. João VI, e se instalar nas imediações da rua próxima ao cais. Em outras levas, vieram sírios, libaneses, armênios, judeus, gregos, entre outros, que foram ocupando as áreas mais interiores.

6. Depoimento do comerciante Alfredo Bouari à Annabella Blyth (BLYTH, 1991, vol 1., p. 78)

7. Isto não significa que os comerciantes da Saara não pratiquem atos ilícitos, como a venda de produtos piratas ou a sonegação de impostos.

8. O termo mascate refere-se à cidade árabe de Mascat, tomada por portugueses em 1507. O local era área de comércio e, em Portugal, passou-se a designar como mascate os mercadores de origem árabe.

9. A maioria deles chineses de Taiwan e do Sul da China continental, com predominância para os dialetos mandarim e cantonês. Em menor proporção também começaram a chegar no mesmo período sul-coreanos e japoneses.

10. Segundo reportagem do Jornal do Brasil, publicada em setembro de 1996, os asiáticos abriram mais de 50 lojas na Saara em pouco mais de dois anos.

11. A China, ao lado da Rússia, é considerada o país com o maior índice de pirataria de produtos. O Xiushui, um dos principais mercados populares de Pequim, por exemplo, com visitação diária média de 100 mil pessoas e o terceiro maior destino de turistas, vende todo tipo de produto pirateado, como bolsas Louis Vuiton, por preços infinitamente mais baixos que os originais.

12. WORCMAN, 2000, p. 43.

13. Ib. id., p. 44.

14. Tongs são gangues chinesas que atuam como braço armado dos grupos mafiosos. Segundo a Polícia Federal, as cinco famílias mafiosas de Taiwan – 14k, Sun Yee On, Bambu Unido, Fuchien e Dragão que Voa – têm forte atuação no Brasil.

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19 agosto 2005

Sistemas Construídos e Memória Social: Uma Arqueologia Urbana?

SISTEMAS CONSTRUÍDOS E MEMÓRIA SOCIAL:
UMA ARQUEOLOGIA URBANA?

Marco Antonio da Silva Mello
Arno Vogel

In: Revista de Arqueologia.
Belém: Museu Paraense Emílio Goeldi,
v.2, n.2, jul/dez.1984, p.46-50.

RESUMO

O desenvolvimento das cidades e as transformações que provoca nos sistemas construídos, ao longo de diferentes períodos históricos, abre perspectivas para que se proceda a uma leitura arqueológica dos espaços urbanos. Esta pretende não só registrar a sucessão de padrões urbanísticos, mas estabelecer uma correlação entre as diferentes formas urbanas das quais foram preservados testemunhas e os modos de vida - as práticas quotidianas - que caracterizam esses ambientes.

A idéia de propor uma arqueologia urbana começou a surgir em 1979, no Catumbi. (1) O bairro estava, na época, sujeito a um processo de intervenção que por muito pouco não levou ao seu total desaparecimento. Havia uma pesquisa em curso cuja preocupação central eram as formas de apropriação dos espaços de uso coletivo para fins de lazer. O trabalho envolvia uma equipe integrada por profissionais de diferentes áreas - arquitetura, urbanismo, educação, sociologia e antropologia -, embora seu viés dominante fosse a perspectiva antropológica.(2)
Durante todo o período da pesquisa de campo percorremos o bairro em inúmeras caminhadas. Andamos até que soubéssemos de cor, não só os limites consensuais do seu território, os nomes e localização de suas vilas, ruas e logradouros públicos, mas ainda toda sorte de informações a respeito de suas realidade arquitetônica, da evolução urbana que tinha experimentado a partir do século XIX, bem como dos modos de vida que haviam caracterizado a comunidade de moradores nas diferentes épocas de sua existência.
Boa parte dessas explorações tiveram o caráter de visitas guiadas. Isso era uma decorrência do próprio estilo de trabalho, pois desejávamos escrever uma etnografia que levasse em conta a versão dos próprios atores. Queríamos aprender. Tínhamos nossas teorias e sabíamos que eles tinham as deles. O problema era como juntar todas elas em uma versão abrangente capaz de explicar mais completamente as perguntas que nos ocupavam. Por isso nos deixamos guiar, ouvindo e registrando com atenção tudo que nos era contado a respeito do que consideravam relevante mostrar-nos.
Logo a primeira caminhada nos proporcionou uma experiência curiosa, cujo alcance só se revelaria, por inteiro, algum tempo depois. E foi desse primeiro contato, dessa experiência inusitada que surgiu, mais tarde, a idéia da proposta de uma arqueologia do urbano.

1. DA GEOGRAFIA FANTÁSTICA À ARQUEOLOGIA URBANA

O assunto do bairro eram as demolições. Todos sabiam que de acordo com os planos de renovação urbana tudo viria abaixo. Por causa disso, pouco se importavam com o tema “apropriação de espaços coletivos para fins de lazer”. Andando pelas pistas recém-asfaltadas do complexo viário da Linha Lilás (3), nossos cicerones falavam com veemência e gesticulavam muito. Indignados apontavam as partes destruídas do casario. Na extremidade de cada uma das ruas que o novo eixo viário tinha seccionado as ruínas sugeriam uma outrora continuidade do tecido urbano.
De repente, um deles estanca no meio do asfalto e começa a recordar: “Aqui era a casa da minha mãe”. Com o olhar fixo na superfície para nós vazia de significados, agita os braços. Traça linhas e descreve ângulos, projetando no chão o risco de uma casa, cuja planta mal e mal conseguíamos visualizar. “Este era o meu quarto; a cozinha ficava ali atrás, do lado do quarto do meu irmão.” Mais alguns passos e com as mão estendida indica outra porção indiferenciada da rua. “Mesmo aí morava a Dona Maria, nossa vizinha. Gente boa. Cansava de nos emprestar ovos, uma xícara de açúcar, essas coisas.”

Seguimos o fluxo dessa narrativa sem ousar interrompê-la. Vez que outras interjeições de admiração incentivam nosso interlocutor a prosseguir com sua descrição que, retrospectivamente, resolvemos chamar de “geografia fantástica” do Catumbi. Em ocasiões subsequentes fomos brindados com outros relatos parecidos. E, através deles, descobrimos uma forma peculiar do exercício da memória que tomava como objeto a própria materialidade dos espaços urbanos, restabelecendo continuidades e evocando lugares lá onde, para nós, não existia nada além de pistas de asfalto, montes de escombros e terrenos baldios.
Era como se estivéssemos assistindo a uma escavação. Sem os instrumentos que esse tipo de prática costuma utilizar, mas nem por isso menos vívida e convincente. Quem resolvesse prestar atenção ao relato, veria aparecer diante de si soleiras, portas e janelas, salas, quartos de dormir, corredores e quintais, E quem tivesse dificuldade para imaginar o que lhe estava sendo apresentado, poderia resolver o problema com um simples movimento de cabeça. Bastaria que levantasse os olhos, voltando-os para o que restava do bairro e compreenderia imediatamente do que se tratava.
Se, no entanto, o plano das demolições tivesse sido levado até o fim e nada mais existisse do velho Catumbi, tudo ficaria mais complicado. Nessas circunstâncias, restaria talvez a esperança de encontrar, por debaixo da capa de asfalto, ao longo de minuciosas escavações os vestígios capazes de comprovar e ilustrar, para o visitante, a existência pretérita de um habitat sepultado pelos planos de renovação urbana.
A ninguém, entretanto, ocorreria empreender escavações no eixo viário da Linha Lilás. Isto seria não só inviável, como, provavelmente, inútil. Por esse motivo a idéia de uma arqueologia do meio urbano tenderia a ser ou descartada ou passaria a depender de acontecimentos fortuitos como, por exemplo, a construção de um metrô.
Como não podemos abrir mão de um conhecimento mais e mais apurado do processo de transformações que orientaram o devir das nossas cidades e não queremos, por outro lado, ficar na dependência de grandes intervenções urbanísticas nos proporcionem a oportunidade de aprofundar o nosso saber nesse campo, achamos que se deve propor uma Arqueologia Urbana por meios e modos que prescindam das escavações.
Trate-se, pois, de inaugurar uma nova linhagem de pesquisas que se recomenda não só pelo seu caráter pioneiro, mas também pela urgência de se produzir um conhecimento mais sofisticado a respeito da evolução da sociedade urbana brasileira, quanto às transformações dos seus aspectos morfológicos, em particular no que se refere à dinâmica histórica dos sistemas construídos e de sua dimensão sócio-espacial.

2. RAZÕES PARA UMA ARQUEOLOGIA DO URBANO


Embora não se deva confundir arqueologia com escavação, o propósito de investigar o urbano partindo de uma perspectiva arqueológica vem a ser o de exumar, no sentido metafórico, trazendo-os à luz e evitando destruí-los ou entregá-los ao esquecimento - o que, na maioria vezes, vem a dar no mesmo -, sistemas de relações que fundam a lógica operativa e simbólica de espaços, elementos, conjuntos e equipamentos urbanos.
As experiências etnográfica e arqueológica se aproximam nesse ponto. Ambas têm no trabalho o campo como pressuposto, pois este lhes permite o exercício do diálogo com as formas sócio-culturais. Ambas têm a tradição de descrever e interpretar. Querem registrar o que existe descobrir os significados das coisas. Pretendem saber como elas são usadas dentro de determinados contextos sócio-culturais. Querem restituir-lhes o sentido.
Uma arqueologia tal como se propõe aqui teria a virtude de estabelecer a compreensão do sistema-de-objetos solidariamente com a vida quotidiana da cultura. O grande problema do arqueólogo, no entanto, sempre foi o silêncio das formas com as quais tinha de trabalhar. Para além da existência, articulada no espaço (continuidade geográfica), e das seqüências cronológicas (profundidade temporal), há uma relação sociológica da qual se poderia afirmar que é o outro da arqueologia.
Através do seu esforço de prospecção e registro, a disciplina busca, precisamente, uma dimensão que transcede a tipologia dos espaços construídos. O resultado desse esforço tem sido, na maioria das vezes, uma narrativa conjetural, cuja finalidade é tornar plausível a correlação entre os elementos e materiais tal como esta se encontra estabelecida numa prática social e historicamente determinada. Essa ficção, no entanto, depende essencialmente das informações que a erudição do arqueólogo seja capaz de colocar a serviço de sua tarefa hermenêutica.
A contribuição positiva de uma arqueologia do urbano consiste na atualização dessa tradição erudita, criando um lugar discursivo no qual seja possível o entrecruzamento de informações elaboradas a partir de perspectivas de conhecimentos diferentes, porém complementares. O esforço para propor uma nova leitura do urbano, aliando a variedade de perspectivas e tópicos de interesse à exaustividade da representação documental seria, em última análise, o objetivo da proposta que, no entanto, pretende alcançar mais além.
O que pretendemos é revitalizar a própria idéia de fazer arqueologia. Para tanto será preciso conjurar, uma vez mais, o lugar-comum estreito, desprestigiado e caricato da caça às artiquities, da procura obstinada de tesouros artísticos ou, ainda, do romantismo das escavações espetaculares de túmulos e repositórios perdidos de culturas e arquiteturas arcaicas.

3. ARQUEOLOGIA E SOCIEDADE: OS SISTEMAS CONSTRUÍDOS COMO MEMÓRIA

A justificativa da proposta de uma Arqueologia Urbana, do ponto de vista epistemológico, reside nas três contribuições essenciais que esta perspectiva poderia oferecer ao campo de investigação sobre os meios urbanos em nossa sociedade.
Em primeiro lugar, está a preocupação com a diversidade dos modos e estilos de vida que se encontram na base de nossa formação social. A Arqueologia Urbana, no entanto, não quer reeditar uma concepção atomística semelhante àquela que celebrizou a teoria das sobrevivências. Não se trata, pois, de modo algum, de inventariar conjuntos urbanos que o processo de mudança das cidades deixou intactos para lidar com eles como se fossem restos isolados de colorido exótico. Seu interesse arqueológico é de outra natureza.
A preocupação fundamental vai no sentido de estabelecer as bases para uma compreensão de identidades culturais, a partir dos sistemas construídos vistos como totalidades atuais de uma sociedade urbana. Estas identidades, entretanto, só se definem em virtude da constante mistura do velho com o novo, do tradicional com o moderno, das permanências com as inovações. Mas como a unidade de sentido é sempre atual, o que existe de velho e novo, tradicional e moderno, permanência ou inovação se articula sempre através de um determinado conjunto de práticas.
Por isso, uma determinada parcela do sistema construído da cidade apresenta significados atuais e potenciais. Uma edificação que hoje tem tal ou qual uso, em outros momentos se integrou à totalidade urbana de outra forma. E no futuro poderá ter novos usos e significados.
O caminho para definir a identidade, o caráter de certos bairros, regiões e centros urbanos depende, portanto, em maior ou menor escala, de se reconstituir a história dos seus espaços e da maneira de praticá-los. Isso envolve a idéia da recorrência quotidiana; do que é comum dentro de determinados quadros de referência sócio-espaciais.
A terceira contribuição da perspectiva aqui adotada seria, precisamente, recuperar os estudos e as análises voltadas para o habitual, em oposição ao excepcional. Convém lembrar a propósito que não só os comportamentos, as maneiras de pensar e sentir, que compõem a unidade complexa de uma totalidade social, fazem parte do costume. A materialidade das coisas culturais representa uma de suas dimensões mais importantes. Os sistemas construídos, tal como o próprio quotidiano, não se limitam a desempenhar o papel de cenários inertes das formas e dos eventos sociais. São eles, na verdade, que dão lugar tanto ao desempenho das rotinas, quanto à produção dos acontecimentos.
A cidade surge, neste sentido, como o theatrum da sociedade. Ela é o lugar da representação e da expressão. Os lugares urbanos são palcos onde se representam os papéis mais significativos para os diferentes grupos sociais que habitam a cidade. Como são estes os responsáveis pelo aspecto e conformação desses lugares, podemos acrescentar que, através deles (lugares) se expressam os valores afeiçoados na sociedade. O espaço construído é, portanto, um elemento constitutivo da própria cultura e confere ao modo de vida vigente o seu caráter peculiar.
A grande virtude da Arqueologia Urbana seria, pois, a de restituir, para os membros da sociedade em questão, o sentido de sua existência sócio-histórica e, portanto, de sua identidade. Assim, se poderia fugir também ao simplismo tipológico e reducionista tão comum às ideologias do progresso.
O progressismo equaciona, de um lado categorias como passado, tradição, obsolescência, padrões estéticos e funcionais indesejáveis, enquanto alinha do outro, futuro com modernidade, com eficiência e beleza.
A relação de um ponto do sistema com outro, nesse caso, é visto sempre como termos evolutivos. O nexo causal dessas séries evolutivas indica a necessidade de abandonar tudo que possa evocar um momento a ser superado e a adoção voluntária, "esclarecida" e, às vezes, acrítica dos elementos que são identificados com uma nova etapa da vida urbana, da qual se acredita que é superior.
O resultado dessa concepção se evidencia, particularmente, através das seguidas, sistemáticas e inumeráveis intervenções modernizadoras que as nossas cidades sofreram, nesse contexto. Em conseqüência delas, surgiram áreas configuradas de acordo com os novos padrões de racionalidade e gosto, enquanto porções inteiras do tepid urbano foram sendo erradicadas ou esquecidas porque tomadas como significantes de tradições urbanísticas, sociais e culturais ultrapassadas.
O rompimento com o estilo de vida que tais formas abrigavam quase sempre se revestiu de um caráter de violência, quer pela destruição material, quer pelos danos propriamente sociais e culturais que afetaram a vida de inúmeras pessoas e a memória de comunidades urbanas inteiras. Essa circunstância gerou uma tendência simétrica e inversa: o conservantismo culturalista. De seu ponto de vista, a cidade desejável já existia e estava no passado. Era este que tinha de ser valorizado e protegido contra o projeto de uma modernidade radical.
No Brasil o dilema progressismo x culturalismo produziu dois casos ilustrativos dessa polaridade. A modernidade intransigente de Brasília, intolerante para com as formas vernaculares da arquitetura e do urbanismo tradicionais, se opõe ao preservacionismo museológico que tem feito de Ouro Preto um de seus cavalos de batalha, rejeitando quaisquer transformações previnientes das demandas de um quotidiano que não é mais o do século XVIII.
Ambas as perspectivas pretendem ditar normas. Tanto a vertente progressista quanto o culturalismo acreditam nas suas utopias, sejam elas prospectivas ou nostálgicas. As duas atitudes têm em comum a suposição de que é possível e desejável anular a vitalidade surpreendente do quotidiano com suas inovações e transformações infinitesimais.
Estes, no entanto, são casos circunscritos e extremos. Daí lhes vem a vocação ilustrativa. Nas cidades brasileiras, o que constata apesar do dinamismo das mudanças, é um equilíbrio tenso entre diferentes gerações de conjuntos arquitetônicos e urbanísticos, representando diferentes estilos de vida e modos de conceber e perceber o urbano. A preponderância, ao menos em tendência, do racionalismo progressita tem promovido a substituição intensiva e extensiva dos sistemas construídos tradicionais, admitindo eleger e conservar apenas aquilo a que se pudesse atribuir o caráter de monumento - igrejas, palácios, fortificações, conventos, chafarizes e outros equipamentos urbanos "do passado".
Os critérios dessa seleção privilegiam, além da profundidade histórica, um certo esteticismo da antigüidade (rareté), a pureza formal do exemplar e, mais comumente, a relação com eventos ou presenças extraordinárias.
O primeiro pressuposto dessa atitude é a concepção atomística do que vale a pena conservar ou restaurar para os contemporâneos, fazendo prevalecer o gosto do pitoresco, o consumo contemplativo dos espíritos requintados, para não mencionar o surrado argumento da capitalização turística. O segundo é a descontextualização dos objetos ou fragmentos preservados com relação aos valores e princípios sócio-culturais que definem (ou definiam) os seus usos funções e significados. Este procedimento apresenta, em geral, como limitação incontornável dos "achados" e "vestígios" materiais de sociedades a muito desaparecidas. No caso dos sistemas construídos urbanos integrados às formas atuais da vida social, no entanto, isto resulta num colecionismo empobrecedor de realidades sociológicas freqüentemente subestimadas. Era disso que estávamos falando ao destacar a necessidade do estudo do sistema do espaço em solidariedade com a dimensão da vida quotidiana.
Em nossas cidades, a dinâmica da vida urbana manteve, combinando-os, padrões urbanísticos inspirados por concepções e determinações distintas daquelas consideradas desejáveis, quer pelo funcionalismo modernista. A situação da maioria destas se presta, por isso mesmo, a uma leitura orientada segundo dois eixos opostos e complementares. O primeiro privilegia a sucessão temporal - o aspecto diacrônico da forma urbana e arquitetural -; o segundo enfatiza a contemporaneidade de formas pertencentes aos sucessivos cortes temporais registrados. O problema dessa diversidade se coloca, a partir daí, não só para o observador preocupado com o registro e a compreensão do tepid urbano, mas sobretudo para os usuários e utentes da cidade.
A idéia de uma Arqueologia Urbana preocupada com o levantamento historicamente escalonado de conjuntos do sistema construído das cidades e de sua alocação funcional em diferentes momentos de sua existência, não se volta apenas para o registro curioso de uma realidade urbana cambiante. Mas que isso, procura apreender as correlações sociológicas que, em cada época, articularam a totalidade urbana. Preocupa-se, também, com as cidades no seu aspecto significativo ou expressivo, encarando-as como elementos de uma representação que as sociedades produzem de si para si mesmas.
As cidades são verdadeiros sistemas de memória. Enquanto tais os centros urbanos - sistema construído e relações que o animam - constituem uma unidade em tensão e em processo. Ao mesmo tempo, apresentam-se como uma espécie de arquivo de modo de viver que os concebeu e como agência produtora de novos modos de vida. Arquivo em permanente processo de atualização, portanto. Nele, os princípios, as idéias e as relações característica de uma determinada sociedade, além de se inscreverem materialmente, podem ser apreendidos de forma sintética.
Objeto percebido e produto coletivo, a cidade se modifica sem parar. Não há resultado definitivo para esse devir, a não ser que ele seja bruscamente interrompido. Enquanto isso não acontece as cidades vão sendo formadas e transformadas para atender aos objetivos de seus múltiplos construtores. Para funcionar de acordo com os parâmetros concorrentes que caracterizam uma época determinada. E para servir de realização estética e erótica aos homens que são os seus artífices. Por isso, uma Arqueologia Urbana pode nos ensinar muita coisa, não só a respeito das práticas do dia-a-dia, mas também a respeito dos sonhos e da imaginação, das artes do fazer e do viver de uma sociedade.

RESUMÉ

Le développement des villes et les transformations auxquelles on été sujets les systèmes construits, au cours des différents moments historiques, ouvre des perspectives pour qu'on procède à une lecture archéologique des espaces urbains. Cette lecture veut non seulement enregistrer la sucession des structures urbanistiques, mais aussi faire une corrélation entre les différentes formes urbaines desquelles ont été preservés des témoignages et les manières de vivre (les pratiques quotidionnes) qui ont fait l'ambience de ces villes ou quartiers.

NOTAS

(1) O Catumbi é um bairro adjacente ao centro da cidade do Rio de Janeiro. Sua ocupação data de meados do século XIX, quando era um lugar de quintas e chácaras nobres. Aparece na obra de Machado de Assís. É o famoso mata-cavalos de Capitu. Mais tarde acolheu numerosos imigrantes, principalmente de origens portuguesas (açorianos), italianos e ciganos. Situado dentro da área da Cidade Nova foi votado à erradicação pelo Plano Doxiadis. A renovação urbana, que chegou em meados dos anos 60, botou a baixo mais da metade do bairro. Em 1981, um decreto de preservação ambiental, obtido na gestão do prefeito Israel Klabin, depois de longos anos de intensa luta e mobilização dos moradores, conseguiu proteger da destruição o que ainda restava dele.
(2) Realizado no âmbito do Centro de Pesquisas Urbanas do Instituto Brasileiro de Administração Municipal, sob a orientação de Carlos Nelson Ferreira dos Santos, o projeto de pesquisa, financiado pela Finep, teve seus resultados divulgados através de livro e filme, ambos intitulados Quando a Rua vira Casa.
(3) O complexo viário da Linha Lilás foi aberto no final dos anos 70, para ligar o Túnel Santa Bárbara à Avenida Presidente Vargas e ao Cais do Porto, estabelecendo a ligação da Zona Sul com a Avenida Brasil.

14 agosto 2005

Under the mosquito net

Pessoal, abaixo a resenha, mencionada pelo prof. Mello, em que Clifford Geertz faz uma análise sobre trabalho de campo a partir dos livros "Diário num sentido estrito do termo" e "Coral Gardens", ambos de Malinowski. Intitulada Under the mosquito net, a resenha foi publicada em 1967, no The New York Review of Books. Na edição seguinte, a revista publicou duas cartas comentando a resenha, ambas também estão disponíveis.

The New York Review of Books
Volume 9, Number 4, September 14, 1967
Under the Mosquito Net
By Clifford Geertz

A Diary in the Strict Sense of the Term
by Bronislaw Malinowski
Harcourt, Brace & World, 315 pp., $6.95

Coral Gardens and their Magic: I: Soil Tilling and Agricultural Rites in the Trobriand Islands II: The Language of Magic and Gardening
by Bronislaw Malinowski
Indiana University, Vol. 2, 350 pp., $7.50

Ten years ago several eminent anthropologists, linguists, and sociologists who had, in one way or another, been students of Malinowski decided that he had been unjustly neglected since his death in 1942 and put together a collection of essays, each of which was devoted to a particular aspect of his work.[*] But, as the writers were frank and competent, the result did rather more to justify the neglect than to end it. Meyer Fortes of Cambridge decided that although Malinowski wrote about Kinship incessantly, he really didn't understand it. S. F. Nadel indicted his religious studies as a simplistic "theology of optimism." J. R. Firth, though sympathetic to his aims, regarded his technical linguistic contribution as consisting of "sporadic comments immersed and perhaps lost in what is properly called his ethnographic analysis." Edmund Leach thought his theoretical writings "not merely dated [but] dead"; Talcott Parsons that he misinterpreted both Durkheim and Freud and had hardly heard of anyone else; Raymond Firth that he failed to grasp economic reasoning; Isaac Schapera that he was unwilling or unable to distinguish law from custom. Only on one point was there unanimous and quite unqualified praise: Malinowski was an incomparable fieldworker. Possessed, in Audrey Richard's words, of "unusual linguistic gifts, lively powers of personal contact and terrific energy," he "achieved a great measure of personal identification with the people he lived with." Pretentious, platitudinous, unsystematic, simple-minded, long-winded, intellectually provincial, and perhaps even somewhat dishonest, he had, somehow, a way with the natives.

Well now we have more direct evidence of just what sort of man this consummate fieldworker was. It takes the form of a very curious document, which its editors have decided to call A Diary in the Strict Sense of the Term, apparently in an effort to communicate that it is a diary in a queer sense of the term. Written, in Polish, during 1914-1915, when he was in New Guinea for his first expedition, and in 1917-1918, when he was finishing up his famous Trobriand research, the diary consists, for the most part, neither of a description of his daily activities nor a record of the personal impact those activities had upon him. Rather it depicts a sort of mental tableau whose stereotyped figures—his mother, a boyhood friend with whom he has quarreled, a woman he has loved and wishes to discard, another he is now in love with and wishes to marry—are all thousands of miles away, frozen in timeless attitudes which, in anxious self-contempt, he obsessively contemplates. For this man of "lively powers of personal contact," everything local and immediate in the South Seas seems to have been emotionally offstage, a profitable object of observation or a petty source of irritation. For more than three years, this "diary" suggests, Malinowski worked, with enormous industry, in one world, and lived, with intense passion, in another.

The significance of this fact for anthropology's image of itself is shattering, especially since that image has been so self-congratulatory. Indeed, for a discipline which regards itself as nothing if not broad-minded, it is most unpleasant to discover that its archetypal fieldworker, rather than being a man of catholic sympathies and deep generosity, a man who his Oceanist contemporary R. R. Marett thought could find his way into the heart of the shiest savage, was instead a crabbed, self-preoccupied, hypochrondriacal narcissist, whose fellow-feeling for the people he lived with was limited in the extreme. (He refers to them continually in this diary as—lapsing into English—the bloody, insolent, or disgusting niggers, and virtually never mentions them except to express his contempt for them: "At bottom I am living outside of Kiriwina [the main district of the Trobriands, in which, physically, he was living] although strongly hating the niggers.") For the truth is that Malinowski was a great ethnographer, and, when one considers his place in time, one of the most accomplished that has yet appeared. That he was also apparently a disagreeable man thus poses something of a problem.

AN ICONOCLAST all his life, Malinowski has, in this gross, tiresome, posthumous work, destroyed one final idol, and one he himself did much to creat: that of the fieldworker with extraordinary empathy for the natives. While intensive field research of the sort Malinowski perfected has grown, so has the notion that the success of such research depends upon the establishment of a peculiar bond of sympathy between the anthropologist and the informant, a bond usually referred to as "rapport." Unlike the missionary, the colonial official, the trader (all of whom Malinowski seems to have regarded as fools or worse) or, nowadays, the embassy aide, Coca-Cola representative, journalist, and junketing economist, the anthropologist "understands the people," and, appreciating this, the people in turn reveal to him their innermost thoughts and feelings.

This unsophisticated conception of rapport is, of course, self-serving and sentimental, thus false. Nevertheless, some bond of sympathy is at the heart of effective field research; and the ability to encourage an informant, who has no particular reason for doing so, to talk with some honesty and in some detail about what the anthropologist wants him to talk about is what separates the gifted from the miscast in ethnography. The value of Malinowski's embarrassing example is that, if one takes it seriously, it makes it difficult to defend the sentimental view of rapport as depending on the enfolding of anthropologist and informant into a single moral, emotional, and intellectual universe. In whatever way Malinowski obtained the material for the more than 2500 pages of the major descriptive monographs which he produced on the Trobriands, he didn't do it by becoming one with the natives:

At 10 I went to Teyava, where I took pictures of a house, a group of girls, and the [food exchanges] and studied the construction of a new house. On this occasion I made one or two coarse jokes, and one bloody nigger made a disapproving remark, whereupon I cursed them and was highly irritated. I managed to control myself on the spot, but was terribly irritated that the nigger had dared to speak to me in such a manner.

In fact, the relationship between an anthropologist and the people he studies is inevitably asymmetrical, and radically so. The two parties come to the encounter with different backgrounds, different expectations, and different purposes. They are not members of a single community, a fact which no amount of murmuring about human brotherhood or the society of all mankind can really obscure. Their interests, their resources, their needs, to say nothing of their positions in life, are all sharply contrasting. They do not see things in the same way nor feel about them in the same way, and so the relationship between them is characterized by moral tension, a fixed ethical ambiguity. Most anthropologists are not so ill-natured as Malinowski, and indeed he seems (though this may merely be a result of his having also been franker than most) something of a deviant, if not an extreme case. But the fact that most good ethnographers are decent and reasonably pleasant men who like and admire the people they work with doesn't really change the situation. The noblest of anthropologists face the problem Malinowski faced: how to penetrate a form of life not merely different from but incompatible with their own.

WHAT SAVED MALINOWSKI, what kept him from sinking entirely into the emotional swamp the diary describes, was not an enlarged capacity for empathy. There is very little evidence in any of his work that he ever found his way into any savage's heart, even the least shy. The psychology is all generalized, the ideas and emotions all standardized. "The Trobriander" (or, often enough, "The Savage") does this or that, feels this or that, thinks this or that. Individuals appear only momentarily as often suspiciously apt illustrations of some general feature of Trobriand mentality. What saved him was an almost unbelievable capacity for work. For a man who complains in his diary almost every day of lethargy, boredom, illness, despair, or just a general inability to get anything done, he collected a staggering quantity of data. Not universal compassion but an almost Calvinist belief in the cleansing power of work brought Malinowski out of his own dark world of oedipal obsessions and practiced self-pity into Trobriand daily life:

As for ethnology: I see the life of the natives as utterly devoid of interest or importance, something as remote from me as the life of a dog. During the walk, I made it a point of honor to think about what I am here to do. About the need to collect many documents. I have a general idea about their life and some acquaintance with their language, and if I can only somehow "document" all this, I'll have valuable material.—Must concentrate on my ambitions and work to some purpose. Must organize the linguistic material and collect documents, find better ways of studying the life of women [domestic implements], and system of "social representations." Strong spiritual impulse.

The diary is laced with moral self-exhortation to leave off onanism, pawing native girls, and reading trashy novels and buckle down to doing what he was there to do. When this is combined with the constant theme of self condemnation, the book takes on something of the tone of a Puritan tract:

Got up at 7. Yesterday, under the mosquito net, dirty thoughts: Mrs. [H.P.]; Mrs. C. and even Mrs. W.…I even thought of seducing M. Shook all this off…Today got up at 7—sluggish; I lay under the mosquito net and wanted to read a book instead of working. I got up and made the rounds of the village. [Studied barter trade.] I resolved absolutely to avoid all lecherous thoughts, and in my work to finish off the census, if possible, today. At about 9 I went to Kaytabu where I took the census with a bearded old man. Monotonous, stupid work, but indispensable.
Woke up late; under the netting a tendency to let myself go, as usual, which I mastered. Planned details of excursion to Kitava and thought about documenting [native trade]. Wrote down conversations…Conversations with [the island chief].


Moral tenets: I must never let myself become aware of the fact that other women [than his fiancée] have bodies, that they copulate. I also resolve to shun the line of least resistance in the matter of novels. I am very content not to have fallen again into the habit of smoking. Now I must accomplish the same thing in respect to reading. I may read poems and serious things, but I must absolutely avoid trashy novels. And I should read ethnographic works.

The total lack of "moral personality" is disastrous. For instance, my behavior at George's, my pawing of Jab., dancing with her, etc. is caused mainly by a desire to impress other fellows…I must have a system of specific formal prohibitions: I must not smoke. I must not touch a woman with suberotic intentions. I must not betray E.R.M. [his fiancee] mentally, i.e., recall my previous relations with women, or think about future ones…Preserve the essential inner personality through all difficulties and vicissitudes: I must never sacrifice moral principles or essential work to "posing," to convivial Stimmung, etc. My main task now must be: work. Ergo: work!

On almost every page one finds something like this. He has erotic fantasies of one sort or another, remembers his mother or his fiancée, is overwhelmed with guilt, and resolves, in spite of severe lassitude, to get down to business, which he does with a vengeance. He then feels, especially if the work goes well, exhausted but euphoric, and discourses, often with real eloquence, on the beauties of the landscape "toward which I have a voluptuous feeling."

THE ETHNOGRAPHY this expiatory approach to work produced was, as one might expect, detailed, concrete, comprehensive to the point of indiscriminateness, and—the word is inadequate—voluminous. "Working at my present pace," he remarks in one of his more optimistic moods, "I should come back laden with materials as a camel." He did, and each of his major works is an enormous encyclopedia of data on every topic related to its general theme, and even on some topics that are not related at all. Coral Gardens and Their Magic, first published in 1935 and just now reissued (and the work Malinowski personally regarded as his best) is a prime example. In its 800 pages, divided into two not very closely integrated volumes, one gets everything from diagrams of house types, layouts of garden plots, and lists of yam exchanges to extensive discussions of Trobriand clan organization, agricultural rituals, gift exchanges, and gardening practices, plus (inserted between a chapter on "The Cultivation of Taro, Palms and Bananas" and one on "Land Tenure") a disquisition on field methods, and (in the second volume) ninety-eight magical texts in the Trobriand language complete with literal and free translations and commentaries. There are sections called "An Ethnographic Theory of the Magical Word," "What Industrial Specialization Looks Like in Melanesia," "A Walk Through the Gardens," "Kayaku—The chief and Magician in Council," "Hunger, Love and Vanity as Driving Forces in the Trobriand Harvest Gift," and "Fruits of the Wood and of the Wild," after which there is a lengthy appendix lamenting the amount of facts he failed to gather (for example, how often the natives calculate the number of seed yams per garden plot).

Malinowski's ex-students were right: it is this great corpus of material, in Coral Gardens, in The Argonauts, in Crime and Custom, in Sex and Repression in Savage Society, in The Sexual Life of Savages, that remains as his monument. The rest—the biologistic theory of functionalism, the contextual theory of language, the confidence theory of magic, the non-economic interpretation of primitive trade, the extension of family ties approach to social organization now seem at best feeble first steps toward an adequate conceptualization of culture, at worst dogmatic oversimplifications that have done more harm than good. His achievement was to compile a faithful, lifelike, and indeed moving record of a primitive way of life, against psychological odds that would have crushed almost anyone else. For if the Trobrianders are "bloody niggers" in his private diary, in his ethnographic works they are, through a mysterious transformation wrought by science, among the most intelligent, dignified, and conscientious natives in the whole of anthropological literature: men, Malinowski is forever insisting, even as you and I.

Or as he. The insight into Trobriand life Malinowski apparently was unable to gain by human contact he gained by industry. Closed off, by the peculiarities of his own personality, from reaching directly what, in The Argonauts, he called the final goal of ethnography, "to grasp the native's point of view, his relation to life, to realize his vision of his world," he reached it indirectly. Isolated, even estranged, from his subjects emotionally, he struggled to understand them by patiently observing them, talking to them, reflecting about them. Such an approach can carry one only so far. But it carried Malinowski farther than most because, in spite of his personal torments or because of them, he carried on the struggle so relentlessly. "Truly," he says in the concluding sentence of the diary, "I lack real character." Perhaps; but it rather depends on what is meant by character.

Notes
(*) Raymond Firth (ed.), Man and Culture, Routledge & Kegan Paul, 1957.

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Letter # 1
November 9, 1967: Hortense Powdermaker,
AN AGREEABLE MAN
By Hortense Powdermaker
In response to Under the mosquito net


To the Editors:
I am puzzled that the distinguished anthropologist, Clifford Geertz, misses or misinterprets a number of significant points of Malinowski's A Diary in the Strict Sense of the Word in his review [NYR, Sept. 14].
I agree with the reviewer that the diary is tedious in the extreme, but not that it "destroyed one final idol, and one he [Malinowski] did much to create: that of the field worker with extraordinary empathy for the natives." I find nothing in Malinowski's writings on method (and remember none in his teachings) about this so-called "extraordinary empathy." The image of the field worker created by Malinowski in the Introduction of his Argonauts of the Western Pacific (1922), the first long account of his work in the Trobriand Islands, emphasized the need to live in the native village, for constant observation, learning the native language, exact recording, separating inference from data, and so on about other techniques for collecting and handling data. It happens, although the reviewer does not mention it, that Malinowski was the first to make anthropology an observational science, to pitch his camp in a native village, and to be a partioipant-observer. Perhaps it was the very novelty of these procedures that led to the development by others of the myth of Malinowski's "extraordinary empathy." We might study the creation of myths in the anthropological clan!
Malinowski himself wrote quite differently: "for the native is not the natural companion for a white man, and after you have been working with him for several hours…you will hanker after the company of your own kind." But, he adds, if you are alone, after a solitary walk you will seek out the natives' company as a relief from loneliness (ibid., p. 7). In this way he became acquainted with much of the imponderabilia of native life. In the same Introduction he mentions periods of despondency, despair, boredom, and the reading of novels as an escape.
In all his writings Malinowski did stress the goal of understanding the native point of view, now generally accepted. Could the youngish American group of ethnographic semanticists who stress the same goal through linguistic techniques be regarded as having "extraordinary empathy?" Malinowski would have agreed completely with the reviewer's point about the false and sentimental concept of "going native." So do I and most all field workers.
I have the impression from the diary that what empathy Malinowski achieved with the Melanesians was due to seeing himself as a "savage," mentioned a number of times. He emphasized knowing one's self as a way of understanding others—their emotional as well as rational life. The similarities between tribal and modern man are now generally accepted, but this was not so at the time Malinowski wrote his diary.
It deals almost exclusively with a painful self-analysis in the life of a complex, sensitive, hypochondriac young Pole, isolated from loved ones and friends, doing field work under difficult conditions during World War I, among a Neolithic people in New Guinea. Malinowski had no one to talk to with understanding. In the diary he wrote his innermost feelings—fears, anxieties, guilt, loneliness, anger, love, sexual frustrations, and dreams—the kind of data given usually by a patient to a psychoanalyst. Malinowski was well aware of psychoanalytical theories and interprets some of his dreams in Freudian manner. He wrote in the diary that it was a form of psychological analysis. It is well known that this kind of writing may be a catharsis.
In his diary, Malinowski swears and curses the natives particularly when they were unreliable and lied to him. What, perhaps, Dr. Geertz did not know was that Malinowski used similar violent language about the "bloody English" and about many other people in his own society. I am told that the word "nigger," which is in the translated diary, does not exist in the Polish language and that the word in the original text meant "blacks," Moreover, Dr. Geertz notes only the instances of Malinowski's frustrations and irritations with the Melanesians and not those times (admittedly less frequent) when he writes about natives who were his friends and whom he trusted.
Nor does the reviewer indicate the two quite different moods—from anguish to exultation—expressed in Doestoevskian fashion in the diary. True, the anguish predominates as one would expect in a diary of this type and in a man like Malinowski. But although he often longed to be away from the islands (as do most field workers in similar circumstances), other times he thought he wanted to live there forever. The diary reveals a man nakedly alive with his senses open to many forms of reality: to the great and almost indescribable beauty of the islands, to the beauty of a woman's body, to the intricate design of a tortoise shell comb, as well as to himself—to his physical symptoms and his many personal problems, to the stench and smell of native life, to the lice and the interminable insects, and to almost every other facet of life.
But Dr. Geertz sees only "a disagreeable man," "a crabbed, self-pre-occupied, hypochondriacal narcissist, whose fellow-feelings for the people he lived with were limited in the extreme." The reviewer continues, "For more than three years, this 'diary' suggests, Malinowski worked with enormous industry in this [Melanesian] world, and lived with intense passion in another. The significance of this fact for anthropology's image of itself is shattering…." But it is "shattering" only for those who do not understand the various levels of consciousness (as well as the unconscious) on which all human beings live, whether or not they are aware of them in the field as well as at home. Suppose spouses, lovers, friends, professors and their students daily revealed their innermost feelings (assuming they were aware of them) to each other and to the public!
Dr. Geertz continues, "What saved him [Malinowski] was an almost unbelievable capacity for work." Certainly, hard work saved Malinowski (and most of us on difficult field trips). But talking to himself through a diary was probably also important in "saving" this troubled young man. The two may not be unrelated and it would not be the first time that a direct confrontation between the personal and the scientific resulted in bold and innovative scientific work. Obviously, it was the case with Freud (also a hypochondriac). This kind of confrontation is often a part of the creative process—similar in the arts and sciences.
The diary was not written for publication, but Dr. Geertz never raises the question of the propriety of that. Written in Polish, it was found among Malinowski's papers after his death; no one had previously known of its existence. Malinowski was indeed unfortunate in his choice of a literary executor, his widow by a second and late marriage, who is a painter. Her decision to publish the diary was as if a psychoanalyst published notes on a patient after the latter's death and without permission. However, granted that the private fantasies and intimate thoughts of a great anthropologist living in New Guinea under very primitive conditions more than fifty years ago might be data and have value, his literary executor could have made them available to scholars by depositing the diary in the University archives which house his field notes and other such data. (A grant for translation could have been secured from a Foundation.) An anthropologist interested in contemporary culture might note that Malinowski's widow apparently chose to have the diary contribute to the current exposé-sensationalism of our culture, even though this exposé happens to be dull.
Hortense Powdermaker
Research Associate
University of California, Berkeley
Letter # 2
November 9, 1967: Ashley Montagu,
AN AGREEABLE MAN
By Ashley Montagu
In response to Under the mosquito net
To the Editors:
I enjoyed Clifford Geertz's review of Malinowski's Diary and Coral Gardens (NYR, September 14). Geertz very fairly conveys the effect of the Diary: however great an ethnologist Malinowski may have been he "was also apparently a disagreeable man." Those who knew Malinowski will be grateful for the "apparently." The Diary does, indeed, leave the impression of a difficult character, and there is no denying the fact that Malinowski could be disagreeable. But this would be to leave the reader with a very onesided view of the man as he really was.
From October 1922 to the end of the academic year 1925 I was a student of Malinowski at the London School of Economics, as were Raymond Firth and Evans-Pritchard. Malinowski was a magnificent teacher, and the influence he had on his students was immense. I learned what a teacher should be like from him, and I am to this day still mining ideas to which he first drew my attention. I continued to take seminars with Malinowski, on and off, till 1929. We corresponded and met intermittently till his untimely death in 1942. As student, friend, and colleague I knew Malinowski for some 20 years. Like most of us he had his faults. They were very human faults. I knew Malinowski as a heroic suffering humane being whose wife, to whom he was completely devoted, was dying of a disabling and incurable illness, while he himself hardly knew a day free from the illness which eventually killed him. I never heard him speak of his own illness, though it was quite evident to me that he suffered much. I never saw him in anything but the most lively spirits, with his ready wit and sense of humor always to the fore, bantering, teasing, joking, even when discussing the most serious matters. He was most generous, kind, and helpful to students, and put himself out to further their careers as I have known few other teachers to do. His prefaces to many of his students' books will always remain a living testimony to his generous spirit. With a few of his old students he fell out. He accused them to me of being disloyal, disloyal in a way that hurt him. Temperament on both sides, I suspect, was involved.
Malinowski once asked me how long it took me in looking over an ethnological work to determine whether or not it was worth reading. I modestly replied, "About three minutes." "Too long," said Malinowski, "All I do is look in the index for my name. If it's there I know it's a good book. It it isn't, then it's no good." This was in the early Thirties, and, of course, Malinowski was quite right. It was that sort of remark that earned him the dislike of the humorless. I am afraid theirs was the loss. Malinowski was as lovable as he was brilliant, and that is how I shall always remember him. His early Diary is not at all representative of the man as he really was.
Ashley Montagu
Princeton, New Jersey

06 agosto 2005

Flanando com Isaac e Carole pelo Rio*

Vi Isaac Joseph pela primeira vez em 2001, numa reunião-palestra na pequena e lotada sala do Núcleo Fluminense de Estudos e Pesquisas (Nufep), no Campus do Gragoatá da Universidade Federal Fluminense (UFF). Estávamos em pleno outono e, no entanto, o calor de Niterói era ainda forte o suficiente para tornar aquele evento cansativo para todos, e sobretudo para ele, que acabara de chegar de Paris, onde o tempo apresentava temperaturas relativamente amenas. Sua presença fazia parte dos procedimentos protocolares do acordo envolvendo a UFF e a Universidade de Nanterre (Paris 10), onde Isaac era professor titular.

Era visível o seu cansaço e irritação diante do desconforto daquela reunião. E eu não sabia o que me afligia mais, se perceber aquele sofrimento alheio ou mergulhar no meu próprio infortúnio, de estar ali me esforçando para entender o que ele dizia, não só porque meu francês era macarrônico, mas igualmente por estar apenas trilhando os meus primeiros passos naquele mundo acadêmico, no curso de mestrado em antropologia do então Programa de Pós-Graduação em Antropologia e Ciência Política (PPGACP). Tinha consciência, no entanto, do refinamento e da perspicácia do pensamento daquele homem, alertado por meu orientador, professor Marco Antonio da Silva Mello. Por isso mesmo, sentia-me mal por estar ali consciente do quanto me faltava para desfrutar plenamente daquelas palavras, o que contribuía para a sensação de desconforto físico que aquele encontro, sem querer, provocara.

Ao fim daquela reunião, fui apresentado a ele como de praxe na academia: "este é fulano, orientando de beltrano, que está estudando tal e qual tema". O tema, no caso, era o botequim, uma espécie de bar característico de regiões metropolitanas brasileiras. Fiquei surpreso com o interesse demonstrado por Isaac sobre aquele assunto. Ele me disse então que estava voltando para Paris por aqueles dias, mas retornaria ao Brasil em um mês, de férias e com sua companheira, Carole Saturno, e me perguntou se eu poderia levá-los a alguns desses botequins. Fiquei extremamente feliz. Sabia que aquela recepção calorosa e especial era trabalho de meu orientador, de quem Isaac se tornara muito amigo. Senti-me portanto duplamente prestigiado.

Cerca de um mês depois, Isaac voltou ao Rio com Carole e tivemos a partir daí um estreitamento que extrapolou o plano meramente acadêmico, sobretudo em relação a um grupo de alunos orientados pelo professor Mello, de quem Isaac e Carole se cercaram carinhosamente. Tiramos proveito da mente brilhante de Isaac em várias ocasiões. Uma delas, numa reunião com seis alunos de pós-graduação (mestrado e doutorado), registramos em fita quase duas horas de conversa, em que apresentamos a Isaac um panorama de nossas pesquisas de campo e ouvimos deles observações metodológicas, bibliográficas e teóricas. Desse material, produzimos um documento informal, que se tornou uma espécie de manual de consulta.

No caso do meu objeto de estudo, Isaac pontuou algumas sugestões bibliográficas, atrelando tais leituras a observações interessantes sobre minha etnografia nos botequins da cidade. Lembro-me, por exemplo, de sua observação sobre o problema do crédito informal, o pendura, ou "l’ardoise", como se referiu Isaac. Ele chamou minha atenção para que observasse quem possuía o acesso ao pendura, assim como aqueles que a ele não tinham direito. Quais critérios eram a base da concessão do crédito: confiança? freqüência? familiaridade? A isso somavam-se indicações bibliográficas que de algum modo poderiam me auxiliar a pensar tais questões. Disse-me ele na ocasião: "je crois que c’est un thème d’analyse sociologique sur l’espace moral du bar qui est intéressante." Isaac chamou-me a atenção ainda para o problema de gênero, perguntando-me se o botequim, objeto de análise em minha etnografia, possuía freqüência mista ou não, "un autre thème aussi qui est intéressante". Para ele, o problema da mistura de gêneros no espaço do botequim, poderia ser analisado como um indício de civilidade. Da mesma forma, apontou-me a questão da proximidade entre fregueses e garçons e do bar no espaço da rua e do bairro.

Todas essas sugestões mostravam profunda a coerência de Isaac em seu mergulho numa releitura dos postulados de autores vinculados à chamada Escola de Chicago e o esforço que vinha empreendendo para levar ao leitor francofônico as idéias fundamentais das pesquisas urbanas de acadêmicos como Simmel, Park, Burgess, entre outros. E ao mesmo tempo sua familiaridade com a produção da sociologia americana atual de algum modo tributária dessa linhagem. Seu trabalho sobre Erving Goffman, felizmente traduzido para o português, é um exemplo de sua perspicácia filosófica, sensibilidade sociológica e o dom da narrativa. Naquela reunião, Isaac passeava por uma série de disciplinas ao falar sobre nossas pesquisas antropológicas. Estava ali diante de nós sobretudo o filósofo, como ele mesmo se definia. Mas acima de tudo, um estrangeiro curioso da cidade e, nós, na condição de apresentar a ele aspectos do Rio que não estão nos mapas do turismo. Ele sugeriu, e nós aceitamos de pronto, acompanhá-lo em nossos respectivos campos.

Levei-o a botequins tradicionais da cidade, onde ele e Carole, puderam saborear uma pequena mostra da gastronomia do Rio, feita de encontro de diversas levas de imigrantes e estrangeiros diversos e que, no Rio, ganharam sua feição definitiva, transformando-se em pratos da cidade. Assim, estão presentes elementos da cozinha africana, mediterrânea, ibérica, árabe e por aí vai. Ele pôde também presenciar as ambiências dessas casas especiais, sua arquitetura singular, a atmosfera de boemia de uma cidade sul-americana cosmopolita. Em cada visita, observando com o olhar treinado, me apontava coisas e fazia perguntas que enchiam minha cabeça de caminhos possíveis a seguir.

A Feira de São Cristóvão foi outra de nossa parada. Uma imensa feira, toscamente organizada em barracas com migrantes da região brasileira do Nordeste. Seu artesanato, culinária, música e arte. Algo muito além do exótico. Um encontro de uma cultura que se deslocou para as principais metrópoles brasileiras e se adaptou criando uma onda que voltou para o Nordeste, num fluxo e refluxo de idéias, sentimentos, modas e arte. Recordo-me da alegria de Carole e Isaac caminhando por entre as barracas, onde carnes penduradas sangravam o chão, ervas medicinais para todos os males do corpo e do espírito, cantadores improvisando os versos, inventando enredos para as pessoas que assistiam, outros dançando o forró (for-all), outros comendo iguarias nordestinas: galinha cabidela, buchada de bode, carne de sol com baião-de-dois, carne seca desfiada com farinha e por aí vai. Tapioca (bejú), cocadas, doces de rapadura (quebra-queixo) e outras sobremesas. As peças de artesanato misturando sagrado e profano, bem medievais: falos de madeira e bonecos de barros trepando, ao lado de imagens de santos.

O grande tour que fizemos com os dois, no entanto, ocorreu alguns dias depois, quando fomos à Vila Mimosa, uma zona de prostituição, campo de estudo para a dissertação de mestrado de Soraya Simões. Trata-se de uma área nem sempre tranqüila. É preciso saber caminhar neste espaço, onde a presença de seguranças, policiais e todo tipo de pessoa traz um potencial para violência relativamente grande. Em um momento de tensão, diante da presença ostensiva de armamento pesado nas mãos desses policiais, ficamos espantados com a preocupação de Isaac sobre nossa segurança. Para nós, não havia risco e, só depois, pudemos compreender o insight que o olhar do estrangeiro havia nos trazido e pudemos nos despir da naturalização com passamos pela violência urbana do dia-a-dia da cidade. Mas terminamos o dia num botequim da Lapa, dos tempos em que o bairro do rio sustentava a fama de centro boêmio do país. Ao nosso lado, adolescentes estudantes de música da academia improvisaram uma roda de chorinho e samba. Acho que foi um fecho de ouro para as incursões aos diversos campos de estudos dos alunos de Mello. A cidade presente em todos eles e com sua alma aberta aos olhos daqueles dois visitantes, como se soubesse que se revelar assim só vale a pena mesmo para quem sabe ver. Os compromissos e o prazo relativamente curto de sua viagem impediu que ele pudesse ir à Amazônia, visitar o poeta Thiago de Mello, meu tio, com quem tinha arranjado uma viagem aos maués, na cabeceira do rio Andirá. Gostaria muito de ouvir os relatos desse encontro entre o filósofo e o poeta, no coração da floresta. Agora, só talvez na próxima vida. Mas, pelo menos, fizemos nossa "flanerie" pelas ruas encantadoras do Rio, como há muito sugeriu o grande escritor João do Rio, tendo ele mesmo desvendado a alma da cidade pisando com o coração aberto suas ruas, vielas e becos. Tendo cruzado com os mais díspares personagens, as histórias mais extraordinárias de vidas que, no entanto, vivem apenas o cotidiano.

E nós, por outro lado, pudemos desfrutar do olhar singular de Isaac, sua sensibilidade, sua experiência e sobretudo o afeto, bem ao seu modo parisiense, que ele nos deu nesse encontro riquíssimo. Por isso, quando soubemos de sua morte, ficamos como baratas tontas, sem saber o que seria desse elo que se havia tão fortemente estabelecido entre nós, não só no plano acadêmico, mas sobretudo do ponto de vista das relações humanas. Ficamos um tanto órfãos.

Pedro Paulo Thiago de Mello
Programa de Pós-Graduação em Antropologia – PPGA-UFF
Laboratório de Etnografia Metropolitana – IFCS-UFRJ
paulothiago@globo.com

(*) Depoimento para o memorial de Isaac Joseph